Public Lighting

Ao longo da sua obra, iniciada h j mais de vinte anos, Mike Hoolboom tem dedicado especial ateno conjugao de materiais heterclitos. Public Lighting, nesse sentido, exemplar. Hoolboom concilia vrios tipos de imagens imagens originais, feitas por ele (em vdeo, normalmente), com todo o tipo de found footage, seja ela propriamente footage (ou seja pelcula) proveniente de filmes mais ou menos antigos, fices ou documentrios, profissionais ou amadores, seja ela extrada ao fluxo televisivo e/ou videogrfico (imagens de noticirios, anncios publicitrios, videoclips). Toda esta diversidade apaixonante e o mesmo poderia ser dito acerca do trabalho de Hoolboom sobre o som, no necessariamente equivalente ao operado sobre a imagem mas em larga medida comparvel. Imagens redimensionadas, reinventadas (ver, por exemplo, o que Hoolboom faz a um teledisco de Madonna no quarto episdio de Public Lighting), mas tambm re-apropriadas, marcadas, sem medo de jogar no limite da rasura e ainda menos de deixar nelas um efeito de inscrio, de sobreposio de uma assinatura, entre outras coisas, sendo que essa assinatura configura menos uma mera sinalizao da presena do autor do que uma assuno plena do trabalho que sobre as imagens foi operado. Evidentemente, estamos perante um tipo de tcnica criativa que, tendo porventura antecedentes referenciveis, foi libertado e expandido pela tecnologia do vdeo, pelas suas possibilidades recuperadoras e manipuladoras. beira do palimpsesto, da escrita sobre, portanto e embora as preocupaes e os estilos de cada um sejam muito diferentes no deixam de fazer sentido as comuns aproximaes entre o trabalho de Mike Hoolboom e o trabalho videogrfico de Jean-Luc Godard. Em Public Lighting encontramos um filme dividido em sete partes, todas elas discriminadas e autonomamente intituladas, e todas elas, apesar das semelhanas e continuidades metodolgicas, com uma forte identidade individual. O princpio organizador comum anunciado pelo ttulo do filme: public lighting, ou seja, iluminao pblica. As primeiras imagens do filme seguem o ttulo letra, como que concretizando (ou, ao contrrio, metaforizando) o procedimento temtico de Hoolboom: iluminar, desvelar, publicamente, um conjunto de pessoas e de lugares, nunca totalmente desligados uns dos outros (o episdio sobre Philip Glass absolutamente indissocivel de um olhar sobre Nova Iorque, por exemplo), por vezes complementando-se, outras crescendo do mesmo passo (o episdio Tradition, em que uma sino-americana se debate com as suas prprias e mais ou menos remotas razes). A este conjunto de retratos, pois no fundo disso, de retratos, que se trata, h que acrescentar a forma sibilina com que Hoolboom explora a possibilidade de algo parecido com um auto-retrato se ir imiscuindo, quanto mais no seja nas entrelinhas. Por vrias vezes os retratados assumem tambm a narrao em off. So as pessoas de quem Hoolboom est prximo, como a escritora que protagoniza logo o primeiro episdio (Writing), amiga do cineasta. Noutras vezes, e sobretudo o caso dos retratos de Philip Glass e de Madonna, essa proximidade tem que ser inventada. Talvez seja aqui que Hoolboom mais nitidamente trabalha uma forma pessoal, um ensaio de auto-retrato. A voz off substituda por uma legendagem que tem, no fundo, o mesmo papel (apenas correspondendo a um emissor menos bvio). No caso de Glass, faz-se uma espcie de pequena elegia, atenta sua msica e sua personalidade, que pode facilmente corresponder ao prprio Hoolboom (no tendo essa correspondncia importncia decisiva sobre a textura do episdio). No caso de Madonna d-se como que a inveno de uma personagem um admirador, que em tempos ter sido amante ocasional da cantora americana, a escrever-lhe uma carta no momento em que soube estar contaminado com o vrus HIV. Por vrias razes, o episdio mais complexo do filme, e tanto tem a ver com Madonna (suas personalidade e imagem pblicas) como, simbolicamente, com um tempo especfico (os anos 80), como com uma abordagem da Sida (when we encounter the brief montage of a young dancer who appears in a series of quick fade-outs, I think its difficult not to read this as a premonition of his death, that he is making his last stand here, disse Hoolboom, que aqui trabalha videoclips e excertos de In Bed with Madonna). Ainda especificamente sobre esse episdio, Hoolboom falou de um acto de graffiti audiovisual, designao justa, at mais genericamente, para o seu cinema (talvez mais do que a expresso que empregmos, palimpsesto). Indo por a, podiam encontrar-se outras expresses modernas para definir Hoolboom (que tem alguma coisa de um VJ ou de um remixer, at pela relao umbilical que a sua colagem visual mantm com a msica). Mas Hoolboom no procura apenas efeitos, muito menos uma mera mecnica da mistura. H uma conscincia por detrs de tudo isso, ou diramos mesmo uma tica. So elas que estruturam Public Lighting, so elas que lhe do o pleno sentido. Lus Miguel Oliveira

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