Nota de intenções

João Nisa


Primeiras Impressões de uma Paisagem é uma instalação concebida para o espaço da galeria Solar a partir do primeiro material que filmei no interior do Aqueduto das Águas Livres para um projecto mais abrangente que aí desenvolvo há já algum tempo, o qual irá resultar na elaboração de vários objectos distintos.

Na origem deste trabalho encontra-se a investigação anteriormente realizada por Diogo Saldanha em torno da relação do Aqueduto com o princípio fotográfico, assente na descoberta da semelhança estrutural de algumas das suas galerias com o dispositivo da camera obscura, e da possibilidade de, através de uma pequena intervenção sobre as aberturas nelas existentes, acentuar a projecção de imagens invertidas da realidade exterior sobre as suas paredes.

Tomando uma intervenção deste tipo como ponto de partida, o projecto que tenho vindo a realizar assenta na filmagem directa de algumas das imagens assim trazidas à visibilidade num troço específico do Aqueduto, situado nos arredores de Lisboa, junto à zona das nascentes de água. Essas imagens surgem projectadas sobre as irregularidades das paredes de pedra, com as quais se fundem até à quase completa indistinção, correspondendo a uma série de pontos de vista fixos sobre a paisagem envolvente e sendo os seus próprios enquadramentos mecanicamente determinados pelos vãos das aberturas por onde penetra a luz.

O processo técnico envolvido neste trabalho veio a revelar-se particularmente complexo, sobretudo devido à ténue luminosidade das projecções e às suas grandes dimensões face à muito reduzida largura das galerias, constituindo um aspecto central do projecto, desde o início, a captação da integralidade dos seus enquadramentos originais. As filmagens têm assim consistido no registo da diversidade de pequenos acontecimentos (o vento nas árvores, os movimentos dos animais, a passagem de viaturas) que se produzem no interior de imagens fortemente estratificadas de uma paisagem concreta, as quais são de seguida trabalhadas de modo a eliminar as marcas da sua forma de produção e da sua inscrição no interior de uma determinada estrutura espacial. O som gravado paralelamente à captação das imagens é constituído pelas modulações da água que continua a correr nas condutas do Aqueduto (apesar do carácter obsoleto da construção), bem como pelos diversos elementos provenientes da realidade circundante que penetram nas suas galerias, numa sobreposição de interior e exterior até certo ponto equivalente à da componente visual.

O projecto centra-se deste modo nas propriedades geradoras de imagens de um monumento arquitectónico de características singulares, propondo um estudo despersonalizado de uma paisagem caracterizada pela conjugação de elementos naturais e de inúmeras marcas da presença e da intervenção humana, mas também, de forma mais geral, uma reflexão em acto sobre as próprias possibilidades da representação da paisagem.

A instalação que concebi para a Solar, a qual precede a apresentação do filme homónimo no âmbito cinematográfico, procura tirar partido das características físicas da galeria, de modo a elaborar um espaço improvável, que não pretende replicar o contexto original das imagens, mas que não deixa, de alguma forma, de com ele se relacionar, através das ideias de série e de percurso contínuo, bem como da própria natureza da construção que a acolhe.

Utilizando uma selecção das projecções que surgirão no filme, e conferindo-lhes uma duração significativamente mais longa, a instalação Primeiras Impressões de uma Paisagem procura criar as condições para que cada uma delas possa ser apreendida em toda a sua riqueza e singularidade, ao mesmo tempo que constrói uma forma de relacionamento entre as imagens e sons específica ao espaço da galeria, visando proporcionar uma intensa experiência perceptiva e sensorial.

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