Instalação 30x1

30x1 é uma composição audiovisual, uma peça evolutiva e mutante, desenvolvida para um espaço onde se distribuem imagens e sons em articulação mecânica, não apresentando a mesma forma global em momentos temporais distintos. Toda a composição foi criada usando pares audiovisuais sincréticos, justapondo objectos sonoros e visuais com origens distintas mas com uma integração comum. Múltiplos blocos audiovisuais com a duração fixa de um minuto estavam distribuídos em 5 séries por um total de 15 ecrãs, confrontando-se entre si e com o todo da composição. Cada série estava fixada visualmente nos vários espaços onde foi projectada, áreas bem delimitadas no interior da galeria, suportes de onde a luz emanava ou de onde esta era reflectida, mas desenvolveu-se visual e auditivamente pela totalidade do espaço, pois se frequentemente o campo de visão do espectador abarca mais do que um ecrã, o som sempre emitido difunde-se por toda a área envolvente a cada ecrã. Apesar de composta por blocos pré-determinados, pré-gravados, a sequência da composição era temporal e estruturalmente aberta: a sucessão em que os blocos de cada série estavam apresentados e a composição final resultante dessa articulação audiovisual eram indeterminadas, sendo definidas a cada momento pelos algoritmos de aleatorização dos leitores de DVD e pela influência secundária que as características mecânicas de cada reprodutor tinham nos espaços de pausa entre as faixas e subsequentemente na flutuação da sincronia entre a reprodução de diferentes séries. Cada série era composta num DVD distinto e a sucessão das faixas reproduzidas era determinada aleatoriamente pelo reprodutor. Não foi programado nenhum tipo de limitação quanto à sequência resultante, logo, cada bloco poderia ser reproduzido sucessivamente sem que a totalidade da série o fosse. Para cada bloco sonoro foram compostos dois blocos visuais alternativos, reduzindo assim ligeiramente a probabilidade de o mesmo par exacto de áudio e vídeo ser repetido sequencialmente, mas nunca eliminando totalmente a possibilidade de isso vir a acontecer. Pela natureza do projecto era aliás desejável que assim fosse. A repetição e o loop são elementos de natureza distinta no domínio das imagens e do som, e, como a estrutura desta peça assentava sobretudo na repetição (não linear) de elementos, produzir múltiplos vídeos para cada faixa áudio permite-nos aumentar a complexidade das possíveis sequências visuais - uma vez que é no domínio das imagens onde somos mais sensíveis ao loop. Mesmo que o número de blocos em cada série fosse substancialmente menor (e o projecto contemplava inicialmente cerca de metade dos blocos actualmente usados), o resultado da aleatorização não foi, por si só, a composição apresentada. Como esta estava distribuida por um espaço complexo, subdividido em diversas salas, o percurso efectuado por esse espaço era, ele também, um elemento compositor determinante, logo, igualmente determinante para a definição de cada experiência de leitura é o próprio leitor, o espectador que circula na visita ao espaço. Na leitura de cada blocofoi proposta uma pesquisa de momentos síncronos, nem sempre óbvios ou imediatamente discerníveis mas sempre existentes. O software programado para a criação dos vídeos analisa todas as frames de áudio e interpola para cada frame de vídeo a amplitude sonora máxima, usando posteriormente estes valores como a base matemática de variação integrada no sistema. O áudio tem naturalmente uma muito maior expansão espacial, apesar de ser amplificado na mesma medida que o vídeo (ou até significativamente menos, em alguns casos). A sua natureza difusa, unidimensional e imaterial, permite que as diversas fontes se cruzem e se fundam a um nível impossível de atingir com o vídeo. Desta forma, a leitura de cada bloco audiovisual (mesmo que o campo visual do espectador não abranja mais do que um ecrã) era inevitavelmente contaminada pelos sons adjacentes, nunca sendo permitida a escuta dos blocos isolados, enquanto a visualização nesses termos é, de facto, possível. As diferentes peças apresentavam diversas variações dos algoritmos com que foram geradas; as raízes programáticas comuns resultam em múltiplas afinidades audiovisuais, sinais de diversidade que relacionam todos os blocos em 30x1.

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