Bits / Ontologia Digital

Por Joo Cruz
Ontologia Digital; num determinado momento estabelecida uma relao de paridade entre os elementos sonoros e os elementos visuais que compem esta pea. Independentemente da sua origem, num determinado momento, o cdigo base de representao destes dois elementos o mesmo, idntico, indiferenciado, infinitamente acessvel e perscrutvel. Nesse momento, nesse lugar, esses elementos so informao, estreitamente relacionada e parametrizada, em dilogo continuo, emergindo como unidade audiovisual, pontos de luz e som finamente entretecidos, partilhando uma mesma ontologia digital. A Audioimagem; aqui falamos de uma possibilidade, algo que ter lugar fora do ecr, fora do prprio espao fsico onde a pea est instalada, algo exterior aos prprios elementos que a compem, algo que a acontecer, o far no espao mental de quem percepciona. Esse fenmeno de sntese audiovisual, essa entidade indissocivel que se consubstancia na audioimagem, constitui-se desta forma como uma construo puramente mental. 30x1; composio audiovisual, espacial, temporal, evolutiva e mutante, constituda por blocos audiovisuais com a durao fixa de 1 minuto (1.500 frames de vdeo PAL, 2.646.000 frames de udio PCM a 44.1 KHz / 16 bit), organizados em 5 sries, 1, 2, 3, e 4, mais uma, 0, de introduo e concluso, e reproduzidos aleatoriamente por 15 leitores de DVD em 15 ecrs. A Audioviso e a Visuaudio; o que que est a potenciar o qu nesta pea? O som potencia a imagem? A imagem potencia o som? Na generalidade das situaes 'audiovisivas', a imagem constitui o ncleo consciente da ateno e o som traz a todo o momento uma srie de efeitos, sensaes e significados que, mediante um fenmeno de projeco, se atribuem imagem e parecem de forma 'natural' derivar dela. Por outro lado, a definio de visuaudio proposta para situaes onde o tipo de percepo se concentra de forma consciente sobre o audvel e sob o qual o contexto visual exerce uma profunda influncia, reforando ou deformando a sua percepo. Obviamente, a realidade prope uma combinao infinita no espao definido entre estas duas formas de percepo onde a primazia de um ou outro sentido oscila indefinidamente. Esta pea parece procurar estabelecer uma relao de equilbrio objectivo entre os elementos, porventura alimentada pela noo de que a percepo de um momento onde som e imagem de alguma forma se relacionam para criar sentido, est longe de ser compartimentada, antes prevalecendo a influncia mtua e uma cadeia de significados que de forma sucessiva parecem emanar da sua combinao. A Sncrese; sincronismo e sntese, um fenmeno psicofisiolgico espontneo dependente das nossas ligaes nervosas e musculares. Amplamente explorado nesta pea, de forma magistral nas constelaes de pequenas quadrados cintilantes, consiste em percepcionar como um fenmeno nico, a concomitncia de um evento sonoro e de um evento visual pontuais, no instante em que ambos se produzem simultaneamente. O fenmeno, literalmente incontrolvel, conduz ao estabelecimento instantneo de uma estreita relao de interdependncia entre sons e imagens, remetendo-os para uma origem comum, independentemente das suas origens, das suas formas e das suas fontes ou natureza, individuais e especficas. Formas geomtricas puras, so constelaes, correntes, erupes, matria, movimento, velocidade, acelerao, sons orgnicos e sons sintticos. Sons orgnicos e sons sintticos so formas geomtricas puras em movimento, velocidade, acelerao, constelaes, correntes, erupes, vibrao. Michel Chion; audioimagem, audioviso e visuaudio, sncrese, extenso e temporalizao so ideias propostas pelo terico, professor, compositor e realizador francs, Michel Chion, numa srie de trabalhos que culminam na obra L'audio-vision (1990), na qual sugere de forma despretensiosa (nas palavras de Claudia Gorbman), novas formas de pensar acerca das estruturas e efeitos da experincia audiovisual. A Extenso; a 'condio audiovisual', como resultado do combinatrio entre sons e imagens, no pressupe a posteriori a sua percepo diferenciada. Os sons e as imagens, quando combinados, passam a ser percepcionados como organizao espacial e temporal, como matria e sentido. A combinao audiovisual como 'causa', produz um determinado nmero de 'efeitos' que so gerados por sons e imagens num contexto audiovisual e portanto, efeitos de gnese audiovisual ou audiovisgenos. A Extenso um efeito audiovisgeno que se relaciona com a construo do espao atravs da combinao de sons e imagens. Normalmente designa um espao concreto a partir do qual a extenso opera, tendo um carcter limitativo quando se escutam unicamente os sons que se produzem nesse local especfico, ou um carcter mais amplo medida que se forem incluindo sons de espaos adjacentes, e mais alargado ainda mediante a incluso de sons de espaos mais distantes ou mesmo longnquos. A extenso espacial do campo do leitor, a introduo do super-campo levado a cabo pela contextura sonora estrategicamente operada na complexidade espacial, afirma-se nesta pea como um elemento fundamental para a construo da sua experincia esttica. Temporalizao e pontos Sincrnicos; a forma como se estabelecem os modelos de ligao som/imagem e a distribuio dos chamados pontos de sincronia constituem elementos importantes para a 'temporalizao' das imagens e, obviamente, para sublinhar visualmente o carcter temporal dos sons. A activao de uma imagem depende da forma como o som introduz pontos de sincronia e da forma como feita a gesto das expectativas dos espectadores em relao s situaes onde a sincronia se verifica. Um ponto sincrnico um momento 'saliente' numa sequncia audiovisual, o momento durante o qual um evento sonoro e um evento visual se encontram em sincronia. Estes momentos de encontro relevante, entre som e imagem, caucionam a relativa autonomia do fluxo de imagens e sons, que correm paralelamente no tempo e espao audiovisual. A gesto deste fluxo, dos seus encontros, desencontros e sobreposies, constroem o carcter pungente de 30x1, conjugando momentos de pura abstraco contemplativa com pontos de uma materialidade cortante que colocam o espectador em constante estado de afterimage.

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