"Coverversion", Martin Arnold, 2008

Coverversion

O grupo Tofu.gti apresenta uma nova versão de Milli Vanilli “Girl You Know It’s True”, um duo (Rob Pilatus, Frank Morvan) produzido na Alemanha nos finais dos anos 80, que apenas tinha a tarefa de, em espectáculos e vídeos, acompanhar as músicas feitas por outros em estúdio, com danças virtuosas e sincronização perfeita de lábios. O fim da banda, deu-se durante uma tournée na América. Durante um espectáculo em Julho de 1989 em Lake Compounce Theme Park em Bristol, Connecticut, a banda playback de “Girl You Know It’s True” ficou suspensa. O escândalo foi grande. A 15 de Novembro de 1990 o produtor, Frank Farian, informou que, na realidade, ambos os músicos nunca tinham cantado e, que não sabiam cantar. Na nova versão de Tofu as coisas funcionam ainda menos: aqui, os músicos mudos, já nem sequer sabem dançar. Eles assim permanecem, enquanto que os outros músicos vão sendo gravados para várias faixas em playback, meramente inertes no meio do palco, para no fim da música, numa sobreposição de cantos de aves e de coiotes soltarem o som “uhhh”. É a ideia da inércia, do ficar suspenso e, do não saber falar. E, no caso de se articular, o que é que se articula? Textos simulados que, simplesmente passam através dos lábios. Sempre se imitaram canções, as preces sempre foram repetidas maquinalmente, na maior parte das vezes com uma miserável alegria devota. Tudo isso, é-nos apresentado actualmente numa forma musical pelos que cantam em karaoke e os que fazem novas versões de um modo muito directo. Triste e, também um pouco arriscado, quando não se sabe dizer nada original e, ainda por cima, o playback fica suspenso. Mas, “Yes, You Know It’s True. Uhhh, uhhh, uhhh...”.

"Cloudy Insulin", Martin Arnold, 2006

Cloudy Insulin

Em “Cloudy Insulin” uma estudante de enfermagem demonstra como usar correctamente os diferentes tipos de insulina, desde a dose certa à injecção. Em perfil parcial, a protagonista olha para a câmara. A sua interpretação é documentada em dois ecrãs: no da esquerda ela começa por citar os processos standard e a preparação da seringa. No da direita ela olha com uma expressão vazia para a câmara. De volta ao ecrã da esquerda, certas palavras como enfermeira, agulha, insulina, etc., são sucessivamente substituídas por risos que vão do riso abafado à gargalhada estridente. As palavras substituídas aparecem no ecrã da direita e a demonstração da esquerda é progressivamente abafada pelas gargalhadas e é gradualmente reconstituída à direita.

"Silent Winds", Martin Arnold, 2005

Silent Winds

“Silent Winds” apresenta Steve Major, um jovem estudante de arte dramática que canta a canção “Darkness Falls” (música e letra de Stephen Cornine). A sua performance é reduzida às suas componentes básicas e asignada aos ecrãs. Qualquer expectativa de que a canção vai ser reconhecida quando os três ecrãs se sincronizarem permanece frustrada. A canção é completamente arruinada.

"Deanimated", Martin Arnold, 2002

"Deanimated", Martin Arnold, 2002

Deanimated

Martin Arnold sujeita um clássico do cinema de terror americano de 1941 a uma cirurgia cinematográfica radical. Os actores desaparecem graças à tecnologia digital, fazendo com que o espaço cinemático se transforme no verdadeiro actor principal e fornecendo uma nova interpretação precisa e absurdamente cómica. Arnold pega no filme original "The Invisible Ghost", no qual uma esposa “hipnotiza” o marido como parte de um plano assassino, e transforma-o em "Deanimated" – um estudo sobre a crescente desintegração dos filmes de actor. No final, o olho da câmara vagueia sobre os sets desprovidos de vida humana onde as luzes parecem ter sido apagadas, literalmente. Em "Deanimated", a morte transforma-se na fúria do desaparecimento o que testemunha uma “insustentável transição para além da existência” (Georges Bataille). A loucura está inscrita nos rostos. O êxtase da supressão, a aniquilação do ser, a reificação do inorgânico, o olhar que busca, que já não encontra qualquer tipo de reconhecimento – estas são as fases que preparam a transição para uma rigidez catatónica (Thomas Miessgang). "Deanimated" embarca no despovoamento radical do ecrã e do auditório. Enquanto os filmes mais antigos de Arnold lidavam com o momento de sobre-ênfase através da repetição do sempre-semelhante, o tema central do filme "Deanimated" é a ideia de desaparecimento. Este velho tema, que nos é familiar dos filmes de crime e de terror, é aqui intensificado e reforçado: protagonistas essenciais do enredo são apagados do filme através de “composição digital”, as bocas dos casais que conversam são apresentadas fechadas, a banda sonora orquestrada amplifica-se para dar mais ênfase dramática aos não-acontecimentos. O que permanece são apenas vestígios de acontecimentos, provas circunstanciais escassas de situações cujas origens não são explicadas: pó que rodopia, o som de disparos, o horror reflectido no rosto de uma mulher que se afasta do vazio.

"Dissociated", Martin Arnold, 2002

Dissociated

O uso que Martin Arnold faz dos filmes de Hollywood demonstra um interesse profundo na ideia Freudiana do estranho, dos momentos inesperados e psicologicamente intensos. Dissociated apresenta duas mulheres “histéricas” emudecidas, retiradas do filme clássico de Hollywood “All About Eve” (1950). As emoções não expressas, a repressão e as forças subliminais dominam a sua conversa abafada.

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