"Pièce Touchée", Martin Arnold, 1989

Pièce Touchée

O material original de Arnold é um excerto de found-footage dos anos 50, de 18 segundos de duração e muito típico da época. Um plano tranquilo: uma sala de estar, uma mulher num sofá. O marido abre a porta, beija-a e depois sai de cena acompanhado de um perturbador plano panorâmico, a sua mulher segue-o. No filme de Arnold esta sequência dura 16 minutos. Frame a frame transforma-se num excitante tango de movimentos. Mas “Pièce Touchée” é mais do que uma questão de formas. Os reflexos, distorções e atrasos que expõem desafiam o estável sistema de Hollywood de espaço e de tempo. (Alexander Horwath)

"Passage à l'acte", Martin Arnold, 1993

Passage à l'acte

Quatro pessoas à mesa do pequeno-almoço, uma família americana, fechada no compasso da mesa de montagem. A curta e vibrante sequência à mesa mostra, no seu estado original, uma harmonia clássica e ilusória. Arnold desconstrói este cenário de normalidade através da destruição da sua continuidade original. Capta os sons metálicos e os movimentos corporais bizarros das pessoas, que, como reacção, são apanhadas na continuidade. A mensagem que está bem abaixo por debaixo da superfície, de idílio familiar, suprimida ou perdida, é exposta – essa mensagem é a guerra. O primeiro choque, a primeira retirada, o medo no começo do filme: o filho salta da mesa e abre a porta que se fixa num loop Arnoldiano de ritmo duro e martelado. Ele é obrigado a regressar à mesa pela ordem paternal mecanicamente repetida, “Sit down” – “senta-te”. No final, quando as duas crianças se levantam, por fim libertas das amarras, Arnold é de novo apanhado pela porta, a terrível porta que bate, como se fosse completamente absurdo tentar sair daqui, deste sítio de infância e de cinema falso. (Stefan Grissemann)

Alone. Life Wastes Andy Hardy, Martin Arnold, 1998

Alone. Life Wastes Andy Hardy, Martin Arnold, 1998

Alone. Life Wastes Andy Hardy

No seu filme “Alone. Life Wastes Andy Hardy” que juntamente com “Passage à l'acte”, forma uma espécie de trilogia da repetição compulsiva, a campanha de Arnold de desconstrução dos códigos dos clássicos de Hollywood vira-se finalmente para a música. O processo está ligado aos outros dois filmes. As cenas em família, que no original duram apenas alguns segundos e não são particularmente notáveis, são cirurgicamente seccionadas em frames individuais. Usando a repetição destas “células simples” e um novo ritmo – uma espécie de procedimento de clonagem – Arnold cria então um insuflado e monstruoso doppelgänger dos cortes originais que dura vários minutos. A mensagem escondida de sexo e violência é virada do avesso até ao ponto em que simplesmente explode. Em “Alone. …” o cruzamento de três inocentes filmes de teenagers dá origem a um drama Edipiano no qual não é apenas o amor materno que se transmuta em puro desejo. Desde “Passage à l’acte”, e contrariamente a outros realizadores que usam found-footage e que escolhem levar o seu trabalho ao mundo da nostalgia muda, Arnold re-trabalhou a banda sonora simultaneamente com a imagem. Assim, o que se ouve em “Alone. …” é o sinistro e áspero “silêncio” do filme sonoro, grávido de tensão suprimida. E exactamente no ponto onde a ilusão do presente, vivo e repleto, parece estar no seu ponto mais forte – na presença de Judy Garland cantando – sentimos a máquina, e implicitamente a morte a manobrar. (Dirk Schaefer)
 
Filmes Martin Arnold
9 Julho, 14.30h
Auditório Municipal de Vila do Conde

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