“My field of interest is to analyse and question the phenomenon of cinema, its various elements and conventional rules. My work is a reflection on the grammar of cinema and the relation between visual art and the cinematic experience.” Nicolas Provost As relações de vizinhança e de miscigenação com as artes visuais são inúmeras e frutíferas ao longo da história do cinema. Em Suspension, o diálogo é do artista com a sua obra, e da sua utilização resulta um olhar multifacetado e em contínua mutação sobre o movimento e a luz, a poesia e a narrativa cinematográfica, a história e a contemporaneidade, o realismo e o abstraccionismo, o visível e o invisível. Enquanto cineasta, o trabalho de Nicolas Provost situa-se entre a ficção e o documentário, entre o grotesco e o comovente, a beleza e a crueldade, inscrevendo-se num espaço de fronteira que separa estas dualidades. As suas fantasmagorias provocam e estimulam tanto o reconhecimento como a alienação e conseguem cativar-nos, jogando com as nossas próprias expectativas, na descoberta do mistério e da abstração. Através da manipulação do tempo e da forma, Provost analisa a linguagem cinematográfica e as suas potencialidades narrativas, alterando o ênfase e o sentido das histórias. Enquanto artista, Nicolas Provost através desta exposição de instalações vídeo, consegue enquadrar os seus vários objectos artísticos numa estrutura de percepção, como quadros de imagens em movimento, de pinturas audiovisuais. São obras nascidas dos seus filmes experimentais e narrativos, que pelas suas características intrínsecas potenciam um grande impacto emocional. Esse impacto é desenvolvido a partir de conceitos artísticos precisos, como a utilização da desconstrução narrativa, a imagem espelho, o ralenti obsessivo, a enorme importância do som, a manipulação do tempo e da lógica narrativa e o cuidado na composição dos planos, ainda que por vezes sejam fruto do acaso no decorrer das filmagens, como no caso de Plot Point. Funcionam sempre como uma experiência melodramática onde sofrimento e fantasia se encontram numa experiência única de fruição cinemática e de apelo ao inconsciente, ao sonho. Podemos falar de sedução na obra de Nicolas Provost. Esta surge da construção de uma estrutura dramática e, ao mesmo tempo, da efemeridade das imagens que se expandem por todos os seus filmes, da sua constante transfiguração, da passagem e da suspensão do tempo, resultando num mergulho imaginário, num impulso visual e quase físico de enorme impacto. Estas premissas do seu método de trabalho são fundamentais para a estrutura da exposição. Exemplificam com grande clareza como um certo cinema contemporâneo, que é também o seu, pode vir ao encontro do espaço da galeria ou do museu, potenciando outras leituras e a apresentação do seu trabalho enquanto cineasta e artista audiovisual num todo. Nicolas Provost pertence a um grupo de artistas cineastas que sem estarem organizados ou em alguns casos, sem se conhecerem, atravessam um período de criação em que a matéria prima que está na base do deu trabalho é o cinema, a sua história e as suas gramáticas, influenciando o seu trabalho videográfico. Douglas Gordon, Matthias Muller, Christoph Girardet, Pierre Huyghe, Christian Marclay, ou Sam Taylor Wood, são outros exemplos maiores de artistas que pensam o seu trabalho autoral, através do próprio cinema, projectando-o para o contemporâneo, participando na regeneração das suas formas de representação e apresentação e conferindo-lhe uma nova importância no panorama das artes visuais. No universo cinematográfico convém referir as aproximações ao mundo do vídeo e da instalação, de realizadores como Raymond Depardon, Chris Marker, Atom Egoyan, Peter Greenaway, Abbas Kiarostami e Chantal Akerman, que através dos novos suportes e modos de difusão participam da evolução do próprio cinema, sempre votado a uma morte prematura, mas que sempre soube através dos seus autores, sobreviver e enriquecer-se encontrando novas formas de apresentação, olhando para a arte contemporânea como um território que também é o seu e possibilitando assim novas audiências para o seu cinema. Esta inscrição do cinema no espaço expositivo reinscreve–o e reabilita-o assim para um futuro onde as duas realidades artísticas se aproximam e fazem do nosso trabalho enquanto programadores um desafio de participação na paisagem dos percursos expositivos que se dedicam exclusivamente a pensar as imagens em movimento, o espaço e o tempo das imagens enquanto território de experiências cinematográficas. Dario Oliveira

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