Do sublime deceptivo

Graham Gussin (Londres, 1960) um artista que tem vindo a ancorar a sua prtica num espectro diversificado de meios, onde se inclui o texto, o desenho, o filme, o vdeo, o som e a instalao para explorar a percepo do tempo, do espao e da escala enquanto relao orgnica entre a obra, o receptor e o contexto expositivo. A sua obra recorre frequentemente apropriao e manipulao de imagens ou narrativas literrias, da histria da arte, da cultura popular e, fundamentalmente, do cinema. As operaes desconstrutivas relativamente ao material cinemtico de que se apropria revelam um interesse particular pelo sedimento estrutural da linguagem cinematogrfica em detrimento da sua articulao narrativa. Acresce que a ambiguidade da resultante aponta para um outro tipo de desconstruo: o da noo de sublime, que assim se v interrogada mediante um trnsito contnuo entre o aparentemente prximo (a transparncia da imagem) e o efectivamente distante (a descodificao dos seus nexos narrativos). Nos seus filmes e vdeos Graham Gussin tanto manipula imagens da histria do cinema, como em Ambient Horror (Day of the Fifteen Dead Layers), de 2006, que um loop de cem minutos que torna o ecr numa espcie de membrana psicadlica para imagens hiper-transparentes de personagens que se vo aproximando e desvanecendo de forma fantasmtica, como pode criar cenrios de incerteza argumentativa de extrema eficcia: em Spill (primeira verso em 1999), um nevoeiro falso criado com gelo seco invade ameaadoramente uma paisagem semi-industrial e abandonada; tal como em muitas situaes de filmes de terror, este elemento torna-se numa espcie de personagem com vida prpria. No entanto, o modo como o autor monta o filme, em longos travellings e sem qualquer tipo de desenlace dramtico pode, ainda que paradoxalmente, aumentar a ansiedade no espectador, o que acaba por sublinhar a importncia que este artista d capacidade das imagens se afirmarem ambiguamente no momento da sua recepo, condicionada por factores to dspares quanto subjectivos. Ao referenciar um universo culturalmente estabelecido, como sejam as imagens e os contedos narrativos do universo cinematogrfico, este artista vai acentuar o seu carcter ambguo ao sobrepor, cortar, inverter ou descontextualizar os seus elementos mais ou menos tipificados. Nos seus mobiles com imagens de cenas da histria do cinema, por exemplo, est a associar ideias de leveza, transparncia e do sublime que seriam caractersticas nas obras de Calder -, com um contexto de uma violncia que no seu caso sempre mais sugerida do que explcita: na verdade, as imagens que utiliza so sempre imagens in-decisivas que tanto podem mostrar paisagens annimas, como locais que sabemos vir a constituir-se como palco das aces fsica e psicologicamente mais violentas (como o caso da obra apresentada neste contexto, onde se podem visualizar imagens do filme Deliverance de John Boorman de 1972, que deixam antever a tenso do confronto dos quatro amigos citadinos com uma paisagem geogrfica e socialmente estranha). As peas de texto tanto podem criar sucesses mais ou menos aleatrias de frases retiradas do universo cinematogrfico, onde normalmente aparecem num contexto de definio de espao ou tempo (por exemplo: sete anos mais tarde, ou nos limites da cidade em Untitled Film), como jogar criativamente com ttulos literrios ou filmes para a construo de meta-narrativas que jogam com o deslocamento como factor primordial de confronto com o espectador. Film poster uma obra especificamente criada para esta exposio que se apresenta em duas situaes diferenciadas: no interior da Galeria podemos aceder sua verso em poster, num convite para o espectador levar consigo este detalhado manual de instrues para a construo do mais improvvel dos filmes. No exterior, na empena de um edifcio contguo ao local da exposio, apresenta-se a mesma obra numa situao de recepo no espao pblico. A sequncia de instrues que nela se podem ler apontam para possibilidade da linguagem se estabelecer como detonador potencial de aces conceptuais e performativas, onde se cruzam situaes de clareza processual (filme uma parede a ser construda) com outras de uma ambiguidade e um nvel de abstraco extremas (filme intimidade). A interpenetrao entre o lingustico e o visual atinge, nesta pea, uma dimenso de aleatoriedade mxima, exactamente porque o determinante na sua putativa execuo ser sempre o agente da aco e o modo como este se posiciona perante as coisas, a temporalidade, as emoes e as linhas de pensamento prprias. Os limites da interpretao, da credulidade e da aceitao da arte enquanto territrio de verdades-outras, so igualmente trabalhados na instalao Remote Viewer de 2002. Aqui um espectador remoto, isto , um indivduo com capacidades telepticas, encontra-se no mesmo espao onde um filme documenta em tempo real uma viagem que o artista filma na Islndia. O espectador remoto vai interpretando atravs de sinais grficos o decorrer dessa viagem, apontando num papel o resultado das suas percepes. No final, o espectador no tem acesso a qualquer tipo de informao sobre o resultado deste exerccio, pois o que verdadeiramente est em causa a capacidade da arte se configurar enquanto terreno de questionamento do real. Aqui Graham Gussin cria mais uma vez uma situao onde espao e tempo, ainda que indicados com preciso e, nesta instalao, em sincronia absoluta, se sedimentam enquanto categorias conceptuais de irredutvel incerteza: a verdade da viagem do artista, a verdade da aco do espectador remoto e a verdade da apreenso da instalao no somam uma verdade global, antes uma interrogao desviante sobre a verdade no contexto artstico. Refira-se, ainda neste contexto, a instalao Fall (7200-1) de 1997. Aqui apresentada uma imagem de uma paisagem natural que apela a uma contemplao descontrada. Contudo, existe a possibilidade dessa tranquilidade idlica vir a ser interrompida por um acontecimento disruptivo. Tal suceder se o programa de computador especificamente criado para esta obra ordenar que tal ocorra. A sua presena no espao de exposio assinalada atravs de um cran de computador onde uma sequncia se vai desenrolando aritmeticamente. Tal como o programa est estruturado, o mais provvel que no perodo normal de uma exposio tal no venha a suceder; contudo, esse acontecimento pode dar-se logo na primeira visita instalao: a suspenso da previsibilidade aumenta de forma determinante a inquietude na sua recepo. Trata-se, ento, de uma espcie de verso contempornea do sublime: um sublime deceptivo. Miguel von Hafe Prez

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