Entrevista com Helena Scragg sobre o projecto White e Victoria para a exposição no Norrkoping Art Museum, 2009

Helena Scragg: Victoria é o primeiro de uma série de quatro filmes previstos que examinam a ideia europeia de beleza.
Salla Tykkä: Há mais de dez anos que tenho na cabeça algumas cenas cinematográficas que lidam com o que considerava extremos de beleza quando era criança. Estas ideias materializaram-se sob a forma de um nenúfar gigante, um cavalo Lipizzaner branco, uma ginasta e uma paisagem de montanhas dos Alpes.
HS: O nenúfar é um motivo clássico da história da arte que muitas vezes simboliza a efemeridade da juventude. Neste caso tu filmaste o nenúfar gigante Victoria Cruziana no jardim Botânico de Helsínquia.
ST: Quando era pequena vi nenúfares nos lagos da Finlândia mas quando vi um filme onde o filho de Tarzan flutuava numa folha gigante no rio, não pude parar de sonhar com fazer o mesmo. A minha imaginação foi ainda mais excitada quando percebi que a planta existia de facto e produzia flores quatro vezes maiores que os nenúfares finlandeses. A minha avó levou-me a ver essa planta no Jardim Botânico da Universidade de Helsinquia, mas como floresce apenas durante a noite foi impossível vê-la. As histórias do Tarzan são reveladoras na maneira como põem o homem branco numa posição superior face a todas as outras criaturas. Para mim, isto é um bom exemplo de como o conceito de beleza está ligado à nossa história. Os exploradores europeus trouxeram da América do Sul as plantas Victoria Amazónica e Victoria Cruziana durante o século XIX. Eu julgo que esta flor, batizada em homenagem à Raínha Vitória, é um símbolo de poder colonial.
HS: Pela forma como filmaste Victoria, o espectador pode ver como o nenúfar ganha vida no ecrã como se fosse um indivíduo. Como planeaste as filmagens?
ST: A minha intenção era documentar as 48 horas em que a flor se abre pela primeira vez na primeira noite com a sua cor branca e depois se fecha durante o dia, abrindo-se de novo na noite seguinte mas desta vez com um rubor vermelho ou rosa. Pensei construir um carril à volta do tanque para que a câmara se pudesse mover lentamente em seu redor durante 24 horas. Isso acabou por ser demasiado difícil então, como alternativa, colocámos duas câmaras fotográficas, uma por cima e outra ao lado do tanque e usámos uma câmara de vídeo para as tomadas em movimento, que captam a ideia de andar à volta do tanque. O director de fotografia teve um papel muito importante para o desenvolvimento do filme e estou contente por termos feito as coisas desta maneira. É de facto um filme ao estilo de Hollywood e a planta transforma-se no actor principal, um foco de admiração que depois se afunda na decadência.
HS: Mencionaste o autor britânico John Ruskin (1819-1900) como uma importante fonte de inspiração.
ST: Comecei a ler uma colecção de textos de John Ruskin e as suas descrições da natureza emocionaram-me imediatamente. Ele viveu numa época de grandes transformações na sociedade que o assustavam tendo procurado consolo na beleza, na natureza, em Deus e na arte. Ao ler os seus textos senti que ele conhecia e amava profundamente a natureza, tanto em grande escala como em pormenor. Ele observava o movimento das nuvens, rios e relva com enorme sensibilidade. Ao ler Ruskin comecei a recordar ideias que tinha tido para um filme e percebi como as ideias do Romantismo me são próximas e estão presentes nas minhas ideias sobre a beleza e a virtude, a fealdade e o mal, o indivíduo e o rebanho. Quanto mais lia Ruskin mais assustada ficava ao compreender a sua necessidade obcessiva por encontrar a pureza, o bem e a beleza, o que leva a pensamentos que são intolerantes para com outros seres humanos. HS: Queres dizer que a ideia de perfeição podería ser uma razão ideológica para o racismo? ST: Sim, é isso mesmo. A sua necessidade de atingir um cume e encontrar uma coisa perfeita feita pela natureza ou por seres humanos. Senti pela primeira vez como esta necessidade pela limpeza, pela pureza e pela perfeição é um padrão que existe tanto na nossa cultura como em mim. Os textos de John Ruskin fizeram-me questionar porque considero certos objectos belos. Partilho certos aspectos da paixão de Ruskin, no entanto não me quero comparar com ele.
HS: Porque escolheste o Adagietto da quinta sinfonia de Gustav Mahler como banda sonora?
ST: Para mim a arte tem a ver com as emoções, sempre. Quando vou ao cinema, a música e a banda sonora sempre têm um grande impacto sobre mim. É por isso que a música tem tido um papel importante em todos os meus filmes. Neste caso foi pura coincidência ter começado a ouvir esta sinfonia de Mahler enquanto montava o filme. Relacionava-se com a imagem visual perfeitamente. A música de Mahler é muito romântica e faz a ligação entre a obra e a época de Ruskin, apesar de não haver textos de Ruskin no filme.
HS: A beleza é um conceito tão ilusório. É relevante para toda a gente, consciente ou inconscientemente, no entanto parece-me que é algo que não discutimos seriamente.
ST: Concordo. A nossa existência é muito dominada pelo sentido da visão. Então, coisas que consideramos belas gozam de um lugar privilegiado na nossa escala de valores. A necessidade, que chega a ser um desejo, de criar perfeição faz-nos pagar quase qualquer preço por ela.

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