Sobre o Poder e o Controlo

Tinha cinco anos e tínhamos acabado de nos mudar para a nossa casa nova. A casa tinha um pátio e nele havia um baloiço algo modesto, feito com uma tábua de madeira e duas cordas. Subi para cima do baloiço e comecei a balançar-me furiosamente, destruindo sistematicamente os meus sentimentos de raiva e saudade do lugar onde costumávamos viver. O ar varria-me a cara e a tensão no meu corpo era extrema. De repente, apercebi-me perfeitamente do poder que tinha em mim, em cada cabelo e em cada poro. Pela primeira vez na minha vida pensei: a vida é aqui e agora, neste movimento, neste momento. A vez a seguir que a mesma sensação me assolou foi quando olhei para uma obra de arte. Pude sentir o poder que me transmitia. Soube que queria fazer arte como forma de vida. As minhas obras são autobiográficas e lidam com a minha relação com o que me rodeia. Estas experiências reflectem-se em estados de espírito. A experiência de crescer enquanto mulher dentro do espartilho dos valores ocidentais não foi fácil. Gradualmente, a auto-terapia deu lugar a temas mais gerais e à participação. Tenho procurado influenciar o mundo à minha volta. Mais recentemente, os meus trabalhos têm sido fáceis de distribuir e de republicar. A palavra ‘poder’ contém pelo menos dois significados: força e controlo. No meu vídeo Power vemos um homem corpulento e uma mulher delicada a boxear. Com uma encenação de filme clássio a preto e branco, a luta parece não ter um vencedor uma vez que nenhum dos boxeadores procura claramente o knockout. Os murros patéticos da mulher são faceis de bloquear mas o homem não explora o seu tamanho nem as suas capacidades, apesar de ser mais forte. Ser poderoso é ser capaz de controlar o poder que se tem. Controlo. No filme, a mulher revela a parte superior do seu corpo tanto para os socos como para o olhar do espectador. Mulheres nuas a boxear ou a lutar são imagens típicas do sexo comercial. No entanto, apesar dos seus papéis, estas personagens são objectos passivos sujeitos ao olhar masculino. Na obra, a personagem activa da mulher reflecte um olhar violento em direcção ao emissor. A canção principal da banda sonora de Rocky é acompanhada por uma jovem sussurrando: de forma insegura, o som desaparece e aumenta passando a música de fundo. Quando toca a sineta, a luta termina. Os boxeadores deixam a arena sem olharem um para o outro. Voltemos ao momento em que os ramos da árvore rasparam no meu cabelo quando tentava balouçar-me o mais rápido possível no baloiço do meu quintal. Os meus sentimentos estão unidos num único ponto. Multiplicam-se e rolam sobre mim com uma força indescritível. Nesse momento, não pude explicar a vida que se me explicava, como se tivesse ficado vazia de sentimentos durante a minha breve história. Na melhor das hipóteses, a arte é capaz de reflectir os maiores milagres. Para mim, fazer arte é empreender uma luta de morte contínua comigo própria. Se decido viver, o poder devolveu-me à racionalidade, ainda que seja apenas por um precioso momento. Salla Tykkä January 2001

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