Instalao, um projector, bobines, pelcula 16 mm, 2006

Um projector numa sala verte o contedo de uma bobine de pelcula para o cho. Depois do filme terminar, o visitante aconselhado a contactar a empregada da galeria para que coloque no projector uma bobine de filme cheia. Durante o intervalo em que no h visitantes o projector mantm-se a trabalhar com a lmpada ligada at se produzir a mudana de bobine. Durante o decorrer da exposio ir surgindo um monte de celulide cada vez maior que inundar o cho da galeria. Um ligeiro derramamento, por assim dizer.

No nosso trabalho de instalao, usamos luz projectada para articular o espao e o tempo. Os projectores de cinema e o celulide so a base material das nossas construces de luz e sombra, as propriedades elementares do cinema. Estas coisas esto profundamente imbudas com a histria do visionamento na escurido da sala de cinema. Remov-las da escurido inundar esta histria e ilumin-la de certa forma, dando-lhe uma determinada exposio. A luz derrama-se sobre os movimentos da pelcula a partir da sua escurido nativa, dentro de um espao cerrado (camera obscura), para a estranha abertura e para a iluminao alheia da instalao.
Ns exploramos esse movimento, elaborando a deslocao, redireccionando a mecnica da luz da peculiar ruptura do meio. A arte do cinema, obviamente. Mas mais oportuno: o cinema da arte.
essa a coming attraction para ns.
Sandra Gibson / Luis Recoder

Aos meus olhos o trabalho mais interessante Light Spill de Sandra Gibson e Luis Recoder no qual um projector de cinema desenrola a sua bobine ininterruptamente, que depois cai em cascata para o cho ante a ausncia de uma segunda bobine. A imagem projectada pouco ntida e indistinta, mas isso insignificante, pois o que se v a forma cnica da matria orgnica, castanha e crua, os abanes e os arrancos, e a aparncia glutinosa e parecida a uma alga no incessante feixe de luz. Durante o espectculo, o pblico, divertido e nervoso, pondera discretamente: O que acontece quando acaba a bobine? A performance muda do ecr para o monte de filme, do monte de filme para o prprio pblico e finalmente do pblico para a empregada do museu, que, desafiando a espuma castanha, vem instalar uma nova bobine de filme, mas, e parece uma sumptuosa brincadeira, apenas se houver um visitante. Durante uma hora ou duas, o novo filme ser por sua vez derramado sobre o cho, light spill (derramamento ligeiro), como um derramamento de petrleo, uma mar negra.
Le Monde

CINEMA/FILME

Perguntar sobre cinema no o mesmo que perguntar sobre pelcula. O cinema a ideia metafsica (do cinema) e no a coisa fenomenolgica propriamente dita. desprovida de materialidade na sua fuga para uma imaterialidade de sonho. Cinema no o mesmo que pelcula. a morte da pelcula (a partir do momento em que surge a escurido, os materiais desaparecem no tecido escuro de um dispositivo de dissimulao abismal). Pelcula no o mesmo que cinema. A pelcula contrasta com o gro (mas no tem gro) do cinema. a carne putrefacta feita de ossos e outros seres corpreos ocultos na escurido, suspensos numa substncia turva. A natureza orgnica da pelcula o longo intestino (umbilical/espinha dorsal) que se desenrola e silenciosamente desliza por detrs das nossas costas (das nossas espinhas), e que rapidamente vai envolvendo a sua infinita espiral (ou laada) volta dos nossos pescoos! A morte da pelcula no a morte do cinema. Sem corpo/esventrada de uma aparente (ainda que no transparente) escurido, a pelcula libertada do seu vnculo imaterial (a sua falsa desapario, a sua falsa morte) e obrigada a vaguear pelo mundo pela primeira vez. A pelcula pode prescindir do cinema pela primeira vez. Enquanto que o cinema finge continuar...
Sandra Gibson / Luis Recoder

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