Tsai Ming-liang, Matthias Mller, Christoph Girardet, Graham Gussin, Sandra Gibson / Luis Recoder, Ariane Michel e Cesrio Alves
No Cinema' uma exposio que parte de um conceito relacionado com a memria e da oportunidade nica de relacionar um evento, o do incio da utilizao de um novo espao em Vila do Conde, o Centro de Memria, com o seu prprio mote. Ao mesmo tempo, participam autores que tambm fazem parte de um outro tipo de memria, a mais recente, relacionada com a programao da Solar Galeria de Arte Cinemtica.
O espao expositivo invadido por um conjunto de obras que se articulam em torno das runas do cinema enquanto espao fsico e dos vestgios materiais dessa experincia, presentes na memria do espectador.


Na ltima dcada o cinema tem vindo a estabelecer uma relao profcua e privilegiada com o museu enquanto espao expositivo. entanto, esta forma de expresso artstica encontrou o seu lugar naquela que viria a marcar a vida do fenmeno cinematogrfico ao longo do sculo XX - a sala de cinema.
O aparecimento desta ltima destinada exibio de filmes em pelcula surgiu em simultneo com o nascimento do cinema, mais concretamente com as pequenas salas improvisadas pelos Irmos Lumire aquando das primeiras apresentaes pblicas do Cinematgrafo.
Desde 1895 estes espaos funcionaram como um novo lugar de magia e iluso, onde uma pequena audincia assistia, no interior duma sala escurecida, projeco de um filme em pelcula. Sobre uma tela branca era assim lanada uma sucesso de imagens estticas que, pela sua velocidade e sequncia, criavam no espectador a iluso da representao da realidade em movimento.
Este modo de criar a iluso do espao, do movimento e da vida, reproduzidos na tela, viria atravs do celulide e do objecto que projectava a luz e as imagens na tela o projector.
Ao longo do sculo XX, esta tcnica foi-se aperfeioando, impondo-se como a matria fsica que viria a marcar a histria e a vida das salas de cinema.
No cinema, em plateias ou balces, com sequncias de cadeiras mais ou menos confortveis, as pessoas puderam sonhar, encontrar divas que nunca antes poderiam ver, puderam rir com Charlot ou Buster Keaton, bater palmas ou at dormir, tal como nos podemos lembrar das salas de cinema de Amarcordde Fellini.
Na dcada de 70, o desenvolvimento do vdeo viria a dar incio a uma crise que, anos mais tarde, se revelou decisiva para o declnio da sala de cinema enquanto espao de grande impacto social, enquanto local onde grandes audincias assistiam ao cinema como grande espectculo.
Com ele nascia a televiso que podia ser vista sem se sair de casa, a qual, gradualmente, foi conquistando os espectadores das salas de cinema, potenciando uma relao de fruio individual do cinema.
Assim, nas ltimas dcadas, temos vindo a assistir ao desaparecimento gradual das grandes salas de cinema, substitudas pelos pequenos estdios que marcaram a dcada de 80 e os complexos multiplex de pequenas salas que invadiram os grandes centros comerciais. Pouco a pouco, os novos espaos foram desenraizados da magia das primeiras salas das grandes cidades ou dos grandes auditrios dos anos de ouro do cinema. As salas comearam a encerrar nos centros das grandes cidades e a abandonar as suas reas nobres.
Os anos noventa trouxeram o aparecimento do digital e o desaparecimento definitivo do uso privado dos formatos em pelcula - como o super 8 , bem como o gradual desaparecimento dos mais recentes formatos de vdeo domstico - como o VHS.
Actualmente, os novos sistemas de televiso ou cinema digitais dotaram o espao domstico, bem como as novas salas de cinema, de uma enorme qualidade de apresentao visual e sonora do cinema.
Assim, todos os materiais e meios que marcaram grande parte da histria da exibio de filmes nas salas de cinema - como o projector ou a pelcula 16mm desapareceram e, at mesmo os actuais projectores 35mm, os quais equipam a maioria das salas de cinema de todo o mundo, esto a comear a ser substitudos pelos novos sistemas de projeco digital.
Hoje em dia, porm, constata-se uma nostalgia que se manifesta em alguns dos cineastas da actualidade em relao a este fenmeno, bem como o gradual interesse - revelado por diferentes artistas de outras reas de expresso pelas possibilidades plsticas dos ditos materiais obsoletos ou pela reutilizao das imagens que proporcionaram a sua histria. Isto reflecte-se numa recuperao visvel dessa matria que tende, gradualmente, a invadir outros espaos que no a sala de cinema. Assistimos assim a uma progressiva invaso da histria e da matria do cinema com relao a espaos expositivos, como as galerias de arte ou museus, ou at a projectos performativos de carcter mais efmero.
Em 2002, no contexto da realizao do Curtas Vila do Conde Festival Internacional de Cinema em Vila do Conde , e associado ao mesmo, surgiu um novo projecto que tem vindo a conferir especial ateno a este fenmeno da intromisso do universo cinematogrfico no espao de uma galeria. a Solar Galeria de arte cinemtica. Nela foram apresentada, pela primeira vez no nosso pas, obras de artistas de renome internacional tais como Eija Liisa Athila, Matthias M, Christoph Girardet, Martin Arnold ou GrahrGussin, obras essas que denotam uma especial recuperao da memria do cinema atravs do found-footage, dareutilizao de matrias do fenmeno cinematogrfico ou dos seus gneros na criao artstica. Com eles, a criao artstica de forte inspirao cinematogrfica deixou a tradicional apresentao nas salas de cinema ou na televiso, passando a ocupar espaos historicamente ligados a artes visuais como a pintura, a escultura ou a instalao. Paralelamente, entre aqueles que mantm uma relao nostlgica com o cinema e a sua histria, encontram-se alguns cineastas, como Tsai Ming-Liang (do qual a Solar apresentou este ano a instalao Erotic Space), que tendem a manifestar um interesse por outros lugares de apresentao de imagens em movimento - como o Museu e a Galeria de Arte. Foi precisamente a partir de um outro projecto - Its a dream - por Tsai para a exposio Atopia (comissariada por Hong John Lin para a Bienal de Veneza em 2007), que surgiu a ideia de organizar esta exposio No Cinema. Trata-se de uma obra que convoca para o espao do museu uma sala de cinema revestida com espelhos, habitada por uma tela e um conjunto de cadeiras provenientes duma antiga sala de cinema da Malsia (onde o cineasta nasceu em 1957). Nesta ltima apresentado um filme que tambm ele exibe uma sala de cinema abandonada onde se encontram estas mesmas cadeiras.
A instalao Deanimated, recentemente apresentada exposta na galeria Solar na exposio dedicada a este cineasta experimental Martin Arnold, que para o espao expositivo esta simulao de uma sala de cinema onde se podia assistir a uma verso do filme O Homem Invisvel, na qual osprotagonistas iam desaparecendo da projeco atravs de um processo de manipulao digital - esteve na origem deste projecto.
Estas duas instalaes, que convocam para o contexto expositivo a presena fsica da sala de cinema, esto na origem desta exposio concebida para o espao do Centro de Memria, cujo ttulo remete para a vivncia passada e presente do lugar do Cinema.
A melancolia do fim do cinema possibilita a construo de uma memria material da arte cinemtica e a musealizao do espao do cinema e do seu espectculo - a projeco numa sala escura. -se a noo de tempo - o tempo de uma relao pessoal com o cinema -, agora fragmentado em narrativas descontnuas e interminveis, em loop.
A luz, a imagem, o som, a pelcula, o projector criam uma nova relao espacial com o espectador, o qual encarna o papel de testemunha e de sobrevivente de um espectculo pblico, entretanto desvalorizado, ultrapassado pela passagem da projeco pblica ao consumo privado.
Ao longo das vrias salas de exposio define-se um percurso que introduz o visitante num espao de imerso, um espao no qual vai (re)descobrindo vestgios do espao do cinema (aquele cinema que nos acompanhou ao longo de dcadas at entrar em crise devido aos actuais meios de difuso e fruio da imagem em movimento), num contexto de bulimia visual que privilegia o fluxo interminvel e fragmentrio de imagens. Fomenta-se a circulao do espectador, que abandona a atitude contemplativa/passiva anteriormente assumida na sala de cinema e que, perante as mltiplas e simultneas projeces, levado a percorrer as diversas salas de exposio, a fazer escolhas, permanecendo ou descobrindo novos espaos, integrando a prpria obra artstica. Nesta exposio, o visitante convidado a percorrer os espaos, a descobrir as formas e os sons dos prprios mecanismos que permitem a fruio dos filmes.
Tal precisamente o que sucede na instalao It's a Dream, de Tsai Ming-Liang, na qual so utilizadas velhas cadeiras de cinema para assistir projeco de imagens do contexto do qual foram retiradas.
Em Play, da dupla Girardet/Mller, somos obrigados a viveo papel de observadosao sermos confrontados com um vdeo composto por sequncias de audincias de filmes clssicos, os quais parecem reagir nossa presena.
O momento e o processo de projeco do filme acompanhado, quer pela ausncia de espectadores em Unseen Film - uma obra de Graham Gussin que apresenta um forte sentido provocatrio, expondo todos os bilhetes de uma sesso de cinema que nunca ter espectadores -,quer pelo crescimento interminvel da pelcula que invade o espao de exposio na instalao Light Spill de Sandra Gibson e Lus Recoder.
Finalmente, os registos do fotgrafo Adriano, alusivos sala do Cine-Teatro Neiva, em Vila do Conde (aquando da sua edificao em 1940), ganham uma nova vida associada memria de histrias familiares de Cesrio Alves, atravs da montagem de impresso lenticular.
Se as diversas propostas que integram esta viagem pelo fim do cinema assumem um corpo desmembrado, descontextualizado e distante, mas carregado de sombras que habitam o nosso imaginrio, demonstram simultaneamente a continuidade da sua existncia que descobrimos nas inmeras marcas que vai deixando no universo da arte contempornea.

Nuno Rodrigues
Comissrio da exposio/ Direco artstica da Solar Galeria de Arte Cinematica

© 2020 Curtas Vila do Conde