Instalao vdeo, filme 35 mm transferido para dvd, 20', 2007

Esta instalao conduz o espectador a um espao escuro que se parece a uma camera obscura. As paredes de cada um dos lados da sala esto cobertas de espelhos ao mesmo tempo que um filme projectado num ecr suspenso colocado de frente. O filme uma curta-metragem de 20 minutos filmada num velho e delapidado cinema da Malsia, o pas de origem do artista. O filme evoca as suas primeiras idas ao cinema. O espectador assiste ao filme sentado num dos 30 assentos retirados do antigo cinema que vemos no filme e enviados da Malsia, o que d nfase aos complexos sentimentos de deslocamento e memria distante (o prprio artista vive fora do seu pas, no Taiwan, h mais de 25 anos).


Decidiu ento ver o meu filme.
Entre e sente-se num dos assentos vermelhos desta sala mal iluminada.
Os assentos so velhos e esto deteriorados, cheios de ndoas e de p.
Foram enviados para aqui, vieram de muito longe, de um antigo cinema que fechou.
Esse velho cinema est agora a apodrecer numa pacata pequena cidade.
Obviamente que j no projecta filmes.
O que est a ver agora foi filmado nesse cinema.
Trata-se de facto de um sonho que tive.
No entanto, o velho cinema do meu sonho foi demolido h muito tempo.
Limitei-me a encontrar outro noutro stio.
Parecia estar a chamar-me.
Vem filmar-me! Vem filmar-me depressa!
Tsai Ming-liang


Tsai Ming-Liang: Muitas vezes sonho com cinemas antigos

Em Kuching, na Malsia, onde nasci e fui criado, existem sete ou oito cinemas antigos. A partir dos trs anos o meu av levava-me ao cinema. Lembro-me que um deles se chamava Audien. O tecto era muito alto e havia muitas ventoinhas suspensas. Tinha mais de mil lugares e as cortinas das portas laterais esvoaavam
O vendedor de bilhetes do Audien era deficiente fsico. Normalmente, quando uma criana atingia uma certa altura passava a pagar bilhete. Se bem me lembro, independentemente do meu tamanho, o meu av comprava sempre um s bilhete e eu entrava com ele, mesmo frente do empregado. Ele tinha sempre cara de mau e eu tinha sempre medo dele Hoje em dia, todos estes velhos cinemas desapareceram. H 20 anos que no vou a casa e raramente penso neles. O que estranho para mim que nos meus sonhos, de vez em quando, ainda vejo o Audien.
Durante a rodagem de What Time is it There?, precisvamos de filmar algumas cenas num cinema. Nos arredores de yung-Ho, onde vivia, encontrei o cinema Fu-Ho que me pareceu muito familiar. Trs meses depois das filmagens esse cinema fechou. Um dia, encontrei o proprietrio do cinema e ele disse-me que o cinema estava pronto para ser demolido. Imediatamente virei-me para o meu produtor, Liang, e perguntei-lhe se tnhamos dinheiro para alugar o cinema. Porqu? perguntou-me. E eu respondi, Para fazer um filme!
Agora, ao pensar nisso, sinto que como se fosse o velho cinema gritasse, Vem filmar-me!
Tsai Ming-liang

Os filmes de Ming-liang Tsai so esculturas no tempo. Os seus cenrios tranquilos, a ausncia de palavras e os movimentos repetitivos desvendam o tempo, um tempo mesmrico que gradualmente absorve o espectador. medida que o tempo progride lentamente no vemos ocorrer nenhuma grande tragdia, comdia ou zanga, tratando-se mais de uma tristeza introspectiva, que leva cada espectador a projectar-se pessoalmente no filme ou a fazer uma ligao entre a imagem e a sua existncia. Em planos longos e volta do tema da espera, acontecem por vezes gestos abruptos e humorsticos, bem como coincidncias, com o objectivo de causar uma sensao de absurdo. Quando a histria acaba, Tsai apresenta uma cano antiga de uma poca distante, imersa resignadamente num estado de esprito imbudo de pathos.
Sons do ambiente ecoam um ritmo de vida montono barulhos de carros, chuva, as conversas acidentais dos transeuntes. Os actores falam muito de vez em quando, se que falam Apenas escutamos desejo isolado, que se dissolve e se liberta em gemidos. Tsai Ming-liang permite que os sons dos seus filmes surjam naturalmente, tal como as suas imagens visuais, uma manifestao em resposta realidade e ao desejo. Aqui, a sexualidade peculiar que se encontra em todos os filmes de Tsai homossexualidade, necrofilia, incesto entre pai e filho pode ser vista como uma alegoria da existncia outsider.
Pelo facto de Tsai usar os mesmos actores nos seus diversos filmes, e pelo facto de as suas histrias bizarras terem um fio condutor semelhante, a sua obra constri uma narrativa nica, como se existisse uma histria verdadeira por detrs ou por entre os prprios filmes. O conjunto dos seus filmes considerado como uma unidade como se fosse uma biografia dos actores. Durante a ltima dcada, os actores envelheceram, dando um tom realista a estes filmes surrealistas. Curiosas mudanas de lugar em cidades taiwanesas, uma esttua de bronze de Chiang Kai-shek, o mercado Chunghwa, o cinema Fuho, o canto de um parque sem nome, uma passagem de pees elevada em frente a uma estao de comboios: estes stios j desaparecidos transformam os seus filmes em documentrios alternativos dos espaos urbanos locais.
Na instalao Withering Flower, Tsai colocou uma esttua de bronze de Chiang Kai-shek num forte enorme e abandonado. Com o olhar fixo no horizonte, Chiang Kai-shek, num sorriso enigmtico e eterno, perfilha-se contra um pomar onde as rvores se agitam com o vento na ilha-campo de batalha de Kinmen. De uma canhoneira do forte, Chiang encara o seu pas natal a China que ele esperava contra-atacar mas ao qual tambm ansiava regressar. como destilar a ltima metade de sculo da histria de Taiwan e de Kinmen num anseio pessoal, proibido e inatingvel. Este acto de deslocar a esttua de Chiang Kai-shek para um forte em runas, mobilizou um smbolo icnico, dando a esta cena uma referncia axiomtica.
O recente I Dont Want to Sleep Alone foi o primeiro filme de Tsai a revisitar o seu pas natal, a Malsia, expressando um sentimento de separao prolongada da sua terra e uma sensao de alienao. Este trabalho uma elegia s pessoas marginalizadas que ocupam casas, se escondem e sobrevivem nos espaos urbanos provisrios, no meio da globalizao. Aprofundando este tema, Tsai Ming-liang filmou Its A Dream para a exposio do Taipei Fine Arts Museum of Taiwan na Bienalle de Veneza. Esta obra ambientada num cinema que prosperou na poca dourada do cinema, os anos 70, e que agora se encontra em runas, sendo entrelaada com estranhas recordaes da sua famlia. Tsai disse um dia: Os filmes, pela sua natureza, so malvados. Se este mal existe, ento deve estar na fronteira com o inconsciente misterioso atravs do encanto das imagens e dos sons. Tsai Ming-liang aponta na direco da economia do desejo, criando um eco em vazios e silncios.
Hong John Lin


ENTRE O ECR E O ESPAO ESPOSITIVO
Uma conversa com Tsai Ming-Liang
Vila do Conde, 9 de Junho 2008

P. Qual a origem destas duas instalaes, Erotic Space e Its a Dream?

R. Quanto a Its a Dream, em 2006 o Museu de Arte de Taip convidou-me a conceber uma instalao para ser apresentada na Bienal de Veneza eles gostam dos meus filmes e pensaram ser interessante uma instalao cinematogrfica. Eu tinha acabado de rodar I Dont Want To Sleep Alone na Malsia e pensei em l voltar de novo nasci na Malsia e vivi l at aos 20 anos. Andei procura dos velhos cinemas de que me lembrava e todos tinham desaparecido. Encontrei alguns em Kuala Lampur, nos subrbios, todos fechados. Decidi filmar num e foi ento que descobri uma coisa muito interessante: havia uma fotografia de uma velha senhora que algum tinha colocado numa cadeira. Havia centenas de lugares, mas apenas a velha senhora numa fotografia. Pensei que talvez a senhora gostasse de filmes e que por isso os filhos tivessem posto aquela fotografia no cinema. E isso fez-me pensar nos meus prximos, na minha av que tambm gostava de filmes, na minha famlia que ia ao cinema. Falei ento minha me para a filmar e, como o meu pai morreu j h anos, pus Lee Kang-Sheng [o actor-ftiche de Tsai Ming-Liang] no papel do meu pai quando jovem uma me velha e um pai jovem, parecia um sonho, todos ns no cinema. Depois pensei que queria ver esse filme nas cadeiras dessa sala de cinema. Por isso retirei 30 e instalei-as em Veneza. Assim, sentamo-nos nas cadeiras de um cinema e vemos em filme essa mesma sala de cinema.

P. Portanto fez um filme numa sala de cinema e depois solicita s pessoas que vejam esse filme em cadeiras que so desse mesmo cinema.

R. Sim, muito interessante, algo entre o ecr e o museu. Entretanto, outro museu de Taiwan, o museu antigo, tambm me convidou para fazer outra instalao [Erotic Space]. Decidi fazer algo sobre mim prprio, sobre as minhas viagens ao longo destes anos, das viagens que fao para apresentar os filmes, mas o meu sentimento que no so viagens, so s festivais e hotis s vezes, acordo e sinto-me totalmente perdido, no sei onde estou.
No gosto de ir filmando esses locais por onde vou passando, mas s vezes h situaes em que tenho de ter a cmara digital e sucede filmar, e tenho alguns filmes de viagens em casa. Vendo-os, vejo o tempo passado, coisas de h dez anos ou mais. Pensei em tambm fazer algo com isso e sobre os meus prprios sentimentos. s vezes j no sei onde e quando filmei. Vejo um vdeo de duas senhoras no metropolitano de Nova Iorque. De um tipo em Taiwan, quando no sei. Ou de dois homens construindo uma casa, em que me interessam os corpos, muito belos, e tinha-os seguido. Vejo estas coisas e penso em mim. Em Taip instalei trs quartos sem luz: Espero que as pessoas venham e na escurido sintam algo em relao a outras pessoas, que no conhecem.

P. Portanto, a ideia que as suas velhas imagens se tornem parte de um sonho ertico.

R. Sim.

P. No tanto por causa das imagens mas pela relao que se estabelece entre pessoas que no se conhecem. Ou tambm por causa dos filmes?

R. No sei se as minhas imagens so ou no interessantes mas acho interessante coloc-las em quartos escuros. Talvez as pessoas at no se interessem por ir, mas quando entram tm muitos sentimentos no escuro quais, no sei.

P. - E ser que estaria tambm interessado em filmar o que sucede dentro desse espao ertico que organizou ou apenas lhe interessou criar o espao?

R. Se estaria tambm interessado?

P. Intriga-o de alguma forma o que fazem as pessoas dentro do espao que foi criado por si? uma questo para si?

R. Por causa do ttulo, Erotic, e de eu no lhes dar a ver nada de ertico, devem pensar porque os aliciei com esse ttulo, porqu.

P. Mas ao dar esse ttulo est de algum modo j a condicionar a imaginao dos visitantes - cada um de ns imagina algo de ertico, algo de ertico que no encontra.

R. Penso que no fundo devem sentir qualquer coisa de ertico. As pessoas tm medo do escuro mas com o escuro s vezes tambm se sentem livres.

P. J tinha feito um filme, Goodbye Dragon Inn, sobre o desaparecimento das grandes salas de cinema tradicionais e ao mesmo tempo sobre esse espao como local de encontros erticos.

R. Em todas as cidades essas salas esto a desaparecer, e nas que restam as pessoas vo l no porque queiram ver os filmas mas apenas porque querem estar no cinema. As pessoas habituais das cidades j no querem ir a essas salas. Eu procuro que elas tenham a sensao de l ir ainda.

P. Mas, por outro lado, em relao concretamente aos filmes pornogrficos, a sua rodagem extenuante, mesmo um pesadelo, pelo menos como a apresenta em O Sabor da Melancia. Pelo contrrio em Goodbye Dragon Inn apresenta a velha sala de cinema como um espao de engate de gays, mas no sentido de uma cadeia de desejos, no de um filme pornogrfico.

R. Claro que eu penso nos corpos mas espero que quando o pblico v os filmes no esteja atento apenas aos corpos e s faces. Dei o ttulo de Erotic Space mas espero que os sentimentos dos espectadores no sejam apenas erticos, que naquele espao pensem um pouco sobre eles prprios.

P. No escuro?

R. No escuro. E coloquei alguns espelhos nos quartos escuros para que os visitantes se possam ver a si prprios.

P. Mas esse espelho no apenas o reflexo da pessoa, tambm o espelho do seu desejo, e do seu desejo de outros corpos. Tal como, de certa maneira, todo o seu cinema o seu olhar, ao longo dos anos, do corpo de Lee Kang-Shen, a sua prpria relao pessoal, ertica, com o corpo de Lee Kang-Shen.

R. Sim, continuo a olhar para ele.

P. Mas no deixa de ser intrigante, mesmo perturbador. Vocs j tm uma longa relao de 7 anos e voc pode ver de novo Rebels of the Non God [primeira longa-metragem de Tsai Ming-Liang], voltar-se para Lee e dizer: neste altura sim, eras jovem e bonito!. H qualquer coisa de muito perturbador nesta possibilidade sustentada por um trabalho comum continuado ao longo do tempo, desta relao muito especial e nica, que, claro, tambm uma relao ertica. Voltar a um dos seus filmes voltar ao que vocs os dois ento eram, vocs foram deixando traos da vossa histria comum Por isso pergunto: no perturbante?

R. Claro que sim. s vezes peo-lhe que se mantenha bonito, mas muito difcil, porque ele no uma movie-star apenas um rapaz normal que eu quero filmar.
P. Ele no se considera uma movie-star?
R. No. E medida que o tempo passa menos o , longe disso. Antes ainda houve outros realizadores que quiseram trabalhar com Lee Kang-Shen, agora sou s mesmo eu. Quanto a mim, sim os meus filmes vo sendo traos da minha vida.

P. H a expresso sonhos hmidos referente a sonhos erticos, e filmes tambm. Quando penso nos seus filmes, claro que nuns mais que outros, alguns so de facto at muito hmidos, mas tambm muito secos, austeros, no modo como filma. O filme mais recente, I Dont Want To Sleep Alone, quase insustentvel, entre o facto ser to hmido de ambiente e ao mesmo tempo to seco, como se naquela situao hmida no houvesse possibilidade de uma relao ertica, o filme sendo quase um grito: I dont want to sleep alone, quero algum.

R. At agora continuo-me a sentir sozinho. Talvez tenha um amante, mas continuo a sentir- me sozinho. E s vezes a prpria relao faz-me sentir sozinho. Acho que o que sinto est nos meus filmes. Acho que continuo procura e em I Dont Want To Sleep Alone encontrei algo de importante: uma relao muito simples, em que um toma conta do outro e o outro toma conta de ti.

Augusto M. Seabra

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