Instalao vdeo, dvd loop, 7'10, 2003

"O pblico no cinema.
Em "Play", a aco no ecr s pode ser vista nas expresses faciais e nos gestos do pblico. O comportamento individual condensa-se no comportamento colectivo em sequncias de reaces anlogas. O acontecimento transferido do palco para a sala; os membros do pblico transformam-se nos actores de um drama imprevisvel.
Com a montagem de imagens de found footage, Mller e Girardet constroem uma ponte fascinante e dramtica que contm um suspense condensado em altos e baixos, hesitaes, picos, tenso e humor. tudo um pouco assombroso, uma vez que a imaginao pode decifrar os fantasmas inscritos bem no fundo dos rostos.
Anke Groenewold, Neue Westflische, Bielefeld, 2003


Play (Christoph Girardet / Matthias Mller, 2003) trata da nossa atitude enquanto membros do pblico. No entanto, nesta montagem de found footage, ns, o pblico, transformamo-nos no objecto do olhar e por isso a nossa atitude tambm passa a ser estranha pois dividida em duas posies. Continuamos a partilhar o ponto de vista da cmara, flutuando invisvel e silenciosamente com ela atravs do espao, enquanto que de vez em quando a cmara selecciona um indivduo da multido e depois devolve-o ao grupo, para poder compreender todo o auditrio. No entanto, tambm somos reflectidos nos gestos emocionais do pblico que vemos atravs da cmara, que Girardet/Mller recombinaram ritmicamente para dar forma a uma narrativa que contm anticipao, felicidade, medo, horror, choque e excitao ilimitada. Estas emoes podem ser lidas nos rostos e nas atitudes fsicas, mas, implicitamente, tambm iluminam os nossos sentimentos. Reconhecemo-nos nestes gestos mas tambm nos sentimos como se tivessemos sido apanhados a ver as coisas que estamos a experimentar no escuro da sala de cinema ou no teatro. No incio um homem aplaude szinho, depois a plateia da sala junta-se a ele. A seguir, pessoas isoladas e casais abandonam-se alegremente ao espectculo no palco. Detm-se, olham sua volta e como se tivessem acordado de um sonho comeam de novo a aplaudir, desta vez com particular entusiasmo. A excitao da plateia cresce; membros do pblico levantam-se e gritam "Bravo!" aos actores. Esquecendo a barreira de silncio que separa o pblico do palco, sao eles que agora esto em foco. Comparavelmente aos invisveis e ameaadores agentes de Home Stories que transformam as casas das heronas em lugares estranhos, imaginamos as estrelas do espectculo, que nos despertam excitao e horror, no lugar oculto do ecr que Pascal Bonitzer designa por espao fora do ecr (off-screen space). Apesar da sua presena poderosa, tambm permanecem invisveis em Play. Depois chega a calma. O pblico acalmou-se de novo, espera em antecipaao pela prxima cena, tem a sensaao de que o prazer est prestes a aumentar. Casais olham-se mutuamente de forma significativa, como se quisessem certificar-se de que esto de facto a disfrutar da performance em conjunto. No entanto, a montagem de Girardet/Mller sugere um desfecho trgico. Para Stanley Cavell, a relao entre pblico e actor caracterizada fundamentalmente por um desequilibrio. Apesar de no estarmos na presena dos actores mas escondidos e a salvo na escurido, eles esto totalmente presentes para ns. As tragdias tornam esta circunstncia mais evidente, mostrando-nos que somos responsveis pela dor e pelo embarao dos outros no porque tivssemos causado o seu sofrimento, mas porque ns, o pblico, os testemunhmos. A razo moral por detrs da ida ao cinema o reconhecimento do nosso quinho de responsabilidade. Play precisamente sobre este reconhecimento, que reala o prazer voyeurista. Assim, a sequncia em que se vem os gritos de Bravo! o primeiro incumprimento, enquanto as vozes de membros do pblico se impem presena dos actores no ecr. Elas no querem ser invisveis; querem ser reconhecidas pelos actores para que lhes possam transmitir a sua excitao directamente. No entanto, a peripcia crucial comea no momento em que uma figura suspeita masculina olha para ns directamente atravs dos seus binculos de pera. Ao passar a ser o objecto do olhar de um membro de outra audincia tambm nos tornamos cmplices. Girardet/Mller ampliam este pacto ameaador com outra cena na qual os binculos de pera so simultaneamente direccionados para a cmara e consequentemente, por inferncia, para ns. De repente encontramo-nos no ponto fraco, onde a razo para toda a excitao do pblico existe.
O sistema habitual de observao foi interrompido. Somos reflectidos nos olhares de outros, com os quais nos identificamos ao mesmo tempo. Ao encenar o ponto de fuga do prazer voyeurista, Girardet/Mller tambm introduzem uma mudana temtica. As coisas passam a ser silenciosas; uma espera opressiva comea, acentuada pela forma como as cenas so abrandadas ao extremo. Uma vez mais, a cmara move-se, focando indivduos do pblico que olham sua volta preocupados, procurando uma forma de evitar a catstrofe eminente. Os espectadores tornam-se irrequietos. J no olham para o ecr em reverncia, em vez disso falam uns com os outros, levantam-se e abandonam o auditrio. Alguns permanecem nos seus lugares. Nos grandes planos vemos gestos emotivos e resignao. Algumas pessoas saem hesitantemente do auditrio quase vazio. Reconheceram a sua parte de responsabilidade mas no a conseguem aguentar e consequentemente querem fugir deste lugar, onde a sua posio segura enquanto espectador foi ameaada pela interrupo inesperada do espectculo.
Apenas um homem fica no espao vazio: Alastair Sim, o pai de Jane Wyman em Stage Fright. Cautelosamente, quase fortuitamente, ele aproxima-se da boca de cena e comea a aplaudir enfaticamente. O som da sua devoo a uma actriz invisvel ecoa emotivamente pela sala. Conscientemente vira-se para ela, abandona a sua distncia ao palco, demonstrando assim que partilha tanto a responsabilidade como o sofrimento. No entanto, um momento estranho permanece: no conseguimos ver exactamente se ele aplaude a pessoa que est no palco na parte escura do enquadramento ou a ns, aqueles que ficaram para trs, com ele. A magia fantasmagrica das personagens do filme retida, pois Play fora-nos a permanecer no auditrio, a colocarmo-nos num lugar impossvel nesse espao fora do ecr, que as figuras do palco conquistaram. Como se fosse um sonho, partilhamos o ponto de fuga da imagem a partir deste momento com aqueles que nos excitam, que nos pem num estado de xtase, que nos perturbam, nos confundem e especialmente, que nos encantam. As estrelas e os personagens que interpretam tm o poder de atrair, o que parece ainda mais poderoso quando esto ausentes. Precisamente porque desapareceram do enquadramento da imagem, estes fantasmas do cinema so particularmente persistentes em impressionar aqueles de ns que se envolvem com a promessa cinfila de Girardet/Mller. No podemos resistir-lhes. Apensa nos podemos abandonar a eles.
Elisabeth Bronfen: I Am Haunted, But I Cant See By What. Matthias Mllers Unheimliches Hollywood. In: Matthias Mller Album, Frankfurt/M. 2004


Ambos pertencemos primeira gerao que teve a sua educao baseada nos media. Foi particularmente a televiso que deixou a imagem mais indelvel no nosso imaginrio. Na escola de belas artes, estudmos cinema enquanto meio artstico para a expresso pessoal, para alm das suas formas mais mediticas. Foi tambm uma investigao crtica sobre o fornecimento de imagens dos media, uma interveno subversiva no seu sistema de sinais e regras. Foi nessa altura que nos interessmos bastante pela histria da found footage, atravs do trabalho de artistas como Joseph Cornell, Bruce Conner e Raphael Montaez Ortiz. Aprendemos que a apropriao uma tcnica cultural que sempre influenciada por factores muito subjectivos, interesses especficos e necessidades pessoais bem como pelas predileces individuais dos artistas que trabalham nos campos relacionados com os media. Fizemos um esforo para levar a srio no s o material de que nos aproprivamos mas tambm de o considerar em relao a ns prprios de forma a realar aspectos triviais e esteretipos. Neste caso, escolhemos referir-nos ao cinema industrial, que tem o poder de enfeitiar a sua audincia mundial atravs das suas formas de representao, smbolos e emblemas estandardizados. No entanto, as nossas condies particulares de produo esto a milhas dos standards da indstria de cujos produtos nos aproprimos.
Christoph Girardet / Matthias Mller

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