Mark Durden

Uma vez conheci um homem muito viajado que guardava todos os papis que lhe chegavam s mos. Cartas, livros, mas tambm facturas, vouchers, fotografias, bilhetes de cinema e de museu, recortes de jornal e declaraes de impostos. Arquivava tudo em dossiers e caixas ano aps ano. Este constitua um dirio escrupuloso da sua vida, do que fazia, do que gastava, o que comia e donde, mas no inclua nenhuma nota pessoal, nenhum registo dos seus pensamentos ou sentimentos. Este apontamento de Daniel Blaufuks pode parecer uma descrio de lbum, 2008, um livro que rene uma coleco de fragmentos, tanto de viagens como de viajar: bilhetes usados para o Taj Mahal, para Madame Butterfly, para Joan Baez notas manuscritas, letras de canes pop escritas mquina, frentes e versos de fotografias, um trevo de quatro folhas, embalagens de fotografias, negativos a cores, frentes e versos de envelopes, recibos, postais etc. Tal como a maior parte do trabalho de Blaufuks, o livro fala de limites, de quanto pode ser dito sobre a experincia atravs de pormenores e vestgios, que resduos de uma vida podero perdurar. disto que se faz um arquivo. Apenas o sistema de ordenao e catalogao associados ao arquivo disposto contra o sinuoso deambular associativo que os fragmentos pem em movimento. O arquivo sobre a administrao das coisas e das vidas, sobre uma fidelidade aos factos, um positivismo que desafiado pelo trabalho potico e evocativo de Blaufuks. No seu belo e comovente filme Under Strange Skies, 2002, Blaufuks aborda a experincia de refugiados dos seus avs, judeus alemes que fugiram da Alemanha Nazi para se instalarem em Lisboa em 1936. Blaufuks cresceu no quinto andar do mesmo edifcio onde viviam os seus avs e no filme evoca vestgios das suas experincias atravs de testemunhos, histrias, filmes, fotografias, documentos, vistos e cartas pessoais. uma resposta emotiva a material afectivo, uma histria sobre deslocao, perda, medo, amor, exlio forado e o desejo de encontrar um sentimento de pertena. Em lbum, pormenores dos vistos de entrada e sada num passaporte e o bilhete de identidade de refugiado ligam as caractersticas deste livro experincia do exlio. Em muitos sentidos, lbum sobre o viajar, sobre o no ter lugar, sobre o movimento das cartas e das lembranas de viagens: um cinzeiro de Jerusalm, a coleco de slides estilo souvenir dos lugares sagrados, o verso de uma carta com o endereo que nos diz de onde foi enviada - Tnger, Marrocos, e temos inclusivamente um postal em 3-D das Twin Towers, que agora toca num ponto sensvel e bastante desagradvel. No existe fotografia propriamente dita em lbum, as fotografias surgem como imagens e tudo apresentado sob a forma de reprodues fotogrficas, como objectos materiais planos que foram dispostos e copiados a cores contra o branco das pginas. lbum descreve uma vida atravs de pormenores. Mas a vida de quem? Que o destinatrio de muitas das cartas e notas seja Daniel Blaufuks, pode levar-nos a pensar que todas estas coisas tm a ver com o autor, constituindo uma espcie de auto-retrato, mas tal como o homem muito viajado do excerto inicial, no h registos dos seus pensamentos ou sentimentos. A subjectividade mantida sob controlo. O livro no entanto sobre uma relao afectiva com as coisas - este material valioso e estimado. O pequeno bilhete amarrotado uma recordao de uma experincia que est para alm da descrio. Cada artefacto um pequeno lembrete ou deixa para outra coisa, algo mais importante. O uso e a textura do uso so aqui importantes, as coisas retratadas nunca esto por usar, nunca so novas em folha. A muito do material dado um certo aspecto histrico, at a memria do computador na ltima pgina do livro recebe uma ptina estranha e bastante antiquada. A relao da memria com a fotografia e com o filme fundamental em muitas das obras de Blaufuks. Uma das pginas de lbum mostra uma embalagem de pelculas que diz MEMORIES FADE, YOUR PICTURES SHOULDNT e no seu livro de textos, The Archive, Blaufuks inclui uma citao de John Berger que diz Todas as fotografias existem para nos recordarem o que esquecemos. Perante lbum somos convidados a recordar. Tal como as coisas copiadas e preservadas podem estar ligadas vida do artista, o que significam para ns fundamental, elas constituem estmulos para as nossas memrias e associaes. Cabe-nos a ns fazer o trabalho de recordar. Por oposio, o trabalho em vdeo Now Remember, 2008 convida os seus participantes a falarem sozinhos para uma cmara esttica durante 15 minutos com a indicao de que devem falar do que se lembram. So eles que fazem o trabalho de recordar. Num certo sentido os vdeos lidam com o gnero do retrato. Isto emocional e levemente voyeurista para o espectador, um encontro com estranhos atravs da forma ntima e tecnolgica do iPod que usado para a sua exibio. Now Remember inspira-se em Screen Tests de Andy Warhol onde os participantes foram deixados sozinhos em frente a uma cmara. Os Screen Tests sao mudos, ligeiramente desacelerados e a preto e branco. Os vdeos de Blaufuks so comparativamente toscos e rudimentares, as tcnicas de produo so primrias e grosseiras, no h recurso ao erotismo do rosto, o que uma caracterstica determinante dos filmes de Warhol. E ao inverso dos protagonistas de Warhol, a quem dito para apenas permanecerem sentados em frente cmara, aos protagonistas de Blaufuks dado algo para fazer. Tm uma tarefa. As suas revelaes sobre o que constitui uma vida esto ligadas propenso arquivista desta obra onde existem tantos pormenores. Imersos nas recordaes de outras pessoas, deveramos comear a questionar se o vdeo sobre a empatia ou a diferena. A premissa humanista do que nos comum e do que nos une a todos comea a esclarecer-se neste trabalho. Estes vdeos no chegam a ser confessionais, apesar de parecerem s-lo quando uma mulher conta cmara (e a ns) um aborto que fez. Os vdeos, em muitos sentidos, so sobre que acontecimentos so importantes - lugares visitados, acontecimentos da infncia, famlia, amigos, os prazeres e tambm as mgoas da experincia. Blaufuks no sabia o que poderia ser desenterrado neste processo. Podemos assumir que esta obra sobre ser humano, sobre o que podemos ter em comum. Mas h algo acerca dos pormenores, acerca da acumulao de informao que temos que comea a constituir um documento de um gnero completamente diferente, por muito que possamos rever-nos em algumas das recordaes, outras so mais impressionantes e cruas lembro-me da gota isolada de sangue no sof no dia que o meu amigo Ray se disparou na cabea. Cumulativamente, os pormenores descrevem outra coisa, a estranheza destas vidas de outras pessoas. O que recordado aqui est relacionado com a sucesso de pormenores preservados em lbum, vestgios de memria que simplesmente se acumulam, uns aps os outros, mas que no seguem uma narrativa ou estrutura clara. Tanto Now Remember como lbum so sobre a textura das vidas vistas atravs dos pormenores. No seu vdeo Perfect Day, Blaufuks lida no com os pormenores mas sim com o esteretipo e o genrico, a uniformidade geral das formas de representao massificada, os clichs xaroposos de uma sucesso de ensolarados postais ilustrados de montanhas, lagos, hotis e cidades. A repetio desta imagtica ideal e perfeita faz sobressair o seu artifcio e a sua falsidade. A famosa cano de Lou Reed, Perfect Day, montada em contnuo para proporcionar uma banda sonora elegaca e lgubre ao vdeo. O projecto foi concebido e exibido em Nova Iorque depois do 11 de Setembro, o que de acordo com testemunhas foi um dia mesmo perfeito. em termos do ideal e do trauma que Blaufuks realizou uma obra que se debrua sobre o Holocausto. No filme , Terezin, Blaufuks pinta de vermelho e desacelera fragmentos de filmagens que os Nazis fizeram no gueto de Theresienstadt, hoje chamado Terezin. Trata-se de um filme de propaganda, que disfara a horrenda realidade do campo de concentrao, feito durante uma visita da comisso da Cruz Vermelha quando o campo tinha sido submetido a um programa de limpeza. Blaufuks est fascinado com a falsidade deste filme. A transformao que faz dos fragmentos inspira-se numa histria de W.G.Sebald, Austerlitz, onde a personagem principal referida no ttulo, conta ao narrador a sua obsesso com este filme, desacelerando-o para tentar ver se consegue encontrar uma imagem da sua me, que ele acredita ter morrido nesse campo. Depois do documento ter sido alongado at ter quatro vezes a durao inicial, revelou pessoas e objectos que antes estavam escondidos e criou um filme completamente diferente, mais perto dos horrores dos campos que o Reich encobria um mundo lgubre, grotesco, e de pesadelo, no qual os homens e as mulheres empregados nas oficinas pareciam estar agora como se estivessem num sonho, de tanto tempo levarem a fazer deslizar a linha e a agulha enquanto cosiam, de to pesadas serem as suas plpebras e de to lentamente se moverem os seus lbios enquanto olhavam penosamente para cima em direco cmara. A ligao com Sebald vem do fascnio de Blaufuks com uma fotografia perturbante em Austerlitz, uma das muitas fotografias dispersas pela narrativa, que do um certo peso factual e histrico fico. A fotografia mostra uma sala cheia de prateleiras at ao tecto onde se guardavam as pastas de arquivo dos prisioneiros do campo de concentrao de Theresienstadt. Blaufuks foi a Terezin e tirou a sua prpria fotografia da sala que est fechada por uma porta de vidro e que hoje em dia faz parte do pequeno museu onde antes era a priso. Blaufuks conta-nos como inicialmente viu a fotografia no livro de Sebald como uma metfora para o seu prprio trabalho. Enquanto fotografia de um arquivo podemos ver a relao que tem com a sua prpria arte, a sua prpria obsesso com o material de arquivo, os fragmentos e vestgios de vidas, com a sua prpria famlia e com as pessoas, jovens e idosas, que ele grava para Now Remember. Tambm relaciona o arquivo com a Soluo Final Nazi. E em relao ao Holocausto que comeamos a compreender verdadeiramente a importncia e a relevncia da memria na arte caracterstica, comovedora e inquietante de Blaufuks. Mark Durden professor de fotografia na Newport School of Art, Media and Design, da University of Wales, no Reino Unido. Publicou mais de cem crticas e artigos de arte contempornea e fotografia. O seu livro mais recente, em co-autoria com David Campbell, Variable Capital, considera a relao entre a arte e a cultura de consumo e foi publicado pela Liverpool University Press em 2007. Campbell, Ian Brown e Durden formam o colectivo de artistas, Common Culture, que apresentar uma exposio na Solar no Outono de 2009.

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