Nos primeiros anos de programao, a Solar acabou por ficar associada apresentao de um conjunto de autores inditos no nosso pas, cujo percurso evidenciava uma vontade de experimentar uma metodologia de criao artstica que antecipava a formulao da sua apresentao, ora na galeria, ora na sala de cinema, como foram os casos de Apichatpong Weerasethakul, Nicolas Provost, Gustav Deutsch ou Matthias Mller e Christoph Girardet.

Sem deixar de lado o interesse pela apresentao deste universo de autores, as propostas de programao mais recentes tm vindo a aproximar-se de um ncleo de criadores nacionais cujo trabalho se situa no raciocnio de programao da galeria, mas que permite novas leituras que propem a experimentao sobre o lugar, os materiais e a forma de apresentao no espao. A galeria surge, assim, como um lugar de construo de dispositivos que evidenciam uma proposta de programao marcadamente fsica, mecnica, e que nos remete para um conceito de estaleiro. Trata-se de introduzir uma certa tendncia de introspeco em relao matria de que so feitos os dispositivos, os elementos que contribuem para o simulacro de construo dos lugares. Esta componente aproxima os projectos a desenvolver daquilo a que est ligado o backstage do cinema (tais como a construo de cenrios, a criao de efeitos sonoros ou sensoriais que posteriormente vemos representados nos filmes).

Miguel Palma afigura-se-nos, sem dvida, um dos artistas portugueses que melhor poderia conceber uma proposta que partisse desta premissa, capaz de reflectir sobre os dispositivos, a encenao ou os lugares, conferindo-lhe uma nova dimenso capaz de nos levar para uma ideia de fantasia e, ao mesmo tempo, questionar a realidade social e poltica contempornea. O artista dedicou-se, desde muito cedo, construo de mquinas e outros engenhos, assumindo-se como uma espcie de artista-engenheiro. Nesta actividade quase obsessiva de manipular os materiais e a tecnologia e, assim, reinventar os objectos e as imagens do mundo, reconhecemos nele uma dimenso ldica e uma inclinao para a fantasia que nos transportam para o universo da infncia.

A sua forma de pensar os espaos e as suas construes, remetem-nos tambm para um universo imaginativo e inventivo, em relao ao qual somos levados a discorrer acerca do universo de Georges Mlis, o realizador (inventor dos primrdios do cinema). Contudo, sob uma aparente dimenso ldica, as obras de Miguel Palma transmitem frequentemente uma viso crtica e irnica do mundo actual e da falncia das utopias associadas ao progresso que marcaram o sculo XX, remetendo-nos para Jacques Tati e o emblemtico filme Playtime. Pelos motivos atrs enunciados, tornou-se premente tornar este projecto uma realidade capaz de nos transpor para uma nova etapa da vida da Solar.

O historial da galeria tem tambm sido marcado por um incentivo e apoio produo artstica e pelo desenvolvimento de um trabalho contnuo de divulgao de obras originais, atravs da cooperao com artistas e outras instituies. Nesse mbito, foi criado um projecto de incentivo criao de peas originais para jovens artistas portugueses, denominado Cave. Nas exposies mais recentes temos vindo a solicitar aos artistas convidados para se associarem a um criador que desenvolva um trabalho no mbito deste projecto, que promova um dilogo com os trabalhos do artista. O autor proposto por Miguel Palma para este trabalho foi Pedro dos Reis, cuja obra se debrua sobre contextos espaciais e temporais atravs da fotografia.

O resultado do trabalho entre os artistas e a curadora convidada, Sandra Vieira Jrgens, permitiu desenvolver, ao longo dos ltimos meses, um projecto de dilogos, o qual deu origem concepo de um conjunto de peas originais de Miguel Palma e Pedro dos Reis e na qual resulta esta exposio.(1)

Nuno Rodrigues
Co-diretor das Curtas Vila do Conde Festival Internacional de Cinema e coordenador da Solar Galeria de Arte Cinemtica

(1)Excerto do "Prefcio" do catlogo Miguel Palma: Densidade, publicado pela Solar no mbito desta exposio.

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