BEACON de Mathias Müller e Christoph Girardet com a cumplicidade do texto de Mike Hoolboom

BEACON de Mathias Müller e Christoph Girardet com a cumplicidade do texto de Mike Hoolboom

Mike Hoolboom é companheiro.
Desde 1999, data do 7º Festival de Curtas, que a nossa organização encontrou na sua obra algo estranhamente complexo e, por isso mesmo, cativante. Perfeito: curtas independentes de baixíssima produção e, contudo, personalizadas, magistralmente realizadas e montadas, o bastante para que despertassem e mantivessem a nossa redobrada atenção.
Cruzamo-nos com Mike em vários contextos e locais. Daí, deixamo-nos envolver também pela sua personalidade afável e pelo génio invulgarmente comunicativo.
Desde a tímida inclusão na competição do Festival de In My Car, uma curta de 98 com apenas 5 minutos rodada e apresentada em película de 16mm, que nos mantemos a par.
A obra de Mike Hoolboom, partindo do exercício primordial entre um núcleo de cineastas canadianos auto-intitulados ‘fringe’, atinge muito cedo níveis de maturação estética e poética. E, para além disso, constitui desde logo uma abordagem crítica e consistente aos fenómenos emergentes da relação da arte cinematográfica com os seus espectadores.
São, então, filmes reflexivos e que, como se constroem ora a partir da experiência vivida por personagens reais, por exemplo ele próprio, ora de excertos de filmes que são como pessoas, acabam por afirmar um verdadeiro ‘first person cinema’.
No catálogo do Festival de 2003, quando lhe dedicamos justamente uma larga retrospectiva, Mike diz-nos: “Todos os meus amigos são filmes”.
E posiciona-se logo do nosso lado.
A incomodidade de algumas das suas reflexões passa também a pertencer-nos, como se o olhar sobre as coisas que vê também fosse o nosso, e os nossos sentidos nos pudessem ajudar a uma possível inteligibilidade das coisas que ele sente.
Foi também a primeira passagem de Imitations of Life e a tentativa de colocar uma curta noutro contexto que não o da sala de cinema. No quadro da mesma retrospectiva exibimos, já neste edifício que viria a servir a Solar, um loop de In the City, uma peça digitalizada de 9 minutos que parecia não ter início ou fim, estava ali, logo na entrada da primeira exposição que ousamos para este mesmo espaço. Tivemos, então, a oportunidade de presenciar o autor e a sua obra, com um leque de escolhas possíveis em torno das montagens, intersecções e transmutações das peças que não têm fim: “This is not the end”. Mas não sem antes passar por outra oportunidade de trabalho em conjunto e deveras partilhado. Os mesmos Mathias Müller e Christoph Girardet, que fizeram a primeira ocupação da Solar enquanto Galeria de Arte Cinemática, terão colaborado nas produções da Curtas para celebrar o 10º Aniversário do Festival. Beacon, uma de entre quatro realizadas a propósito, tem, exclusivamente, um texto seu.
Mike, Mathias e Christoph.
Desta maravilhosa cumplicidade, da passagem dos seus filmes pelo Festival, da sua predilecção por Vila do Conde a que regressa mais uma vez, constroem-se as razões da desmultiplicação das suas peças cinematográficas em loop vídeo que agora habitam a Solar.
Ficam os retratos, de pessoas como filmes, como o Mike.
Mário Micaelo

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