Mike Hoolboom – uma memória inquieta
É com um dilúvio de imagens que Mike Hoolboom nos convida a confrontarmo-nos. O que desde logo nos atinge, e o que também fascina, é a extraordinária densidade desta torrente, bem como a sua impureza fundamental.
Hoolboom alimenta os seus filmes de excertos saídos, por um lado, de um magnífico hold-up que ele cria a partir da herança da história do cinema e da televisão (ele avia-se como se estivesse num supermercado, com toda uma gama de produtos, do cinema de Hollywood ao found-footage). Por outro lado, realiza as suas próprias imagens, usando a câmara como meio de investigação, animado por uma curiosidade excepcional.
Então, com todos estes excertos de cinema reunidos, Hoolboom compõe filmes complexos e, no entanto, muito simples, contando fragmentos de histórias, que retratam rostos, corpos e vozes. Vejam-se, por exemplo, curtas paradigmáticas como “Miss You”, “Amy”, “In the Theatre” e “Fontage”. Nos seus filmes são esboçadas questões delicadas: a perda da pessoa amada, o mistério de um corpo, de um rosto, a morte no trabalho, os laços de família.

Mike Hoolboom é um inventor de formas; visualmente, plasticamente, ele cria um novo imaginário. Se os seus planos são geralmente curtos, leia-se muito curtos, é na montagem que se desenvolve o seu sentido. O cineasta é mestre na montagem à qual dedica tempo considerável. Ele persevera na busca de uma temporalidade feita de grandes fôlegos que prolonguem o curto alento de tantas imagens. No próprio seio do seu cinema, Mike Hoolboom joga com a questão da memória, da reflexão e da meditação, que resultam do domínio dos ritmos, da respiração controlada. Mas a composição dos seus filmes deve imenso à extraordinária riqueza das suas bandas sonoras, à beleza das vozes: a dimensão áudio do seu trabalho é apaixonante na forma como aborda a fronteira entre o consciente e o inconsciente, entre a vigília e o sonho. Entre os medos arcaicos e os pensamentos saudáveis.

A obra de Mike Hoolboom é uma metáfora do universo do cinema no qual evoluímos como sonâmbulos assustados em direcção aos raios de luz. Indispensáveis, eles fertilizam a memória para reverter o processo de esquecimento definitivo dos seres e das coisas. É uma inquietação existencial, uma lucidez maliciosa também, que confere ao trabalho de Hoolboom uma beleza comovente. Ele atem-se a uma reinvenção do cinema, que desenvolve dentro do próprio cinema (e dos seus avatares televisivos). A sua obra de inflexões de um palimpsesto que permanece passível de se reescrever é necessariamente marginal e iconoclasta. Dá sentido a uma visão do mundo na qual, é verdade, as imagens mostram a morte no trabalho. Mas Mike Hoolboom não é mórbido. É o sentimento reconfortante dos prazeres insuspeitos que ele dá a partilhar.

Jean Perret

Director
Visions du Réel
Festival International de Cinéma de Nyon
[www.visionsdureel.ch](http://www.visionsdureel.ch/)

10.07

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