Imitations of Life

Mike Hoolboom é autor de uma vasta obra cinematográfica (há muitos anos que usa o vídeo, mas por comodidade de vocabulário usemos o termo cinematográfica), no domínio do assim chamado cinema experimental (outra comodidade de vocabulário). Como tantos cineastas e videastas experimentais, Hoolboom organizou diversas exposições e instalações. Foi precisamente por ocasião de uma exposição actualmente em curso na galeria Solar, em Vila do Conde (e intitulada precisamente Imitations of Life), que Hoolboom veio a Portugal, o que suscitou estas duas sessões com trabalhos seus na Cinemateca. Além de ser um mestre no domínio visual, com uma noção aguda sobre o sentido de cada imagem, que a maioria dos cineastas tradicionais não têm e a maioria dos cineastas experimentais têm, Hoolboom também domina profundamente bem a palavra, escrita e falada. É autor de centenas de artigos, de dois livros e as suas narrações em off nos seus filmes, assim como as suas apresentações dos mesmos ao público, são extremamente poéticas e ao mesmo tempo de uma clareza intelectual absoluta. Como bem observou Matthias Müller, um artista cinematográfico da mesma geração e da mesma constelação que ele: “À sua grande inteligência visual, traduzida pela força da imagem dos seus filmes, alia-se um considerável talento literário. Na narração em voz off nos seus próprios filmes, Hoolboom recorre a uma linguagem directa e poética que o ajuda a comunicar com o seu público. Interpretados com uma voz quente e sugestiva, mas ao mesmo tempo insistente, oscilando entre a melancolia e uma doce ironia, o laconismo e o sarcasmo, os textos mantêm um maravilhoso equilíbrio com as imagens”. Imitations of Life é uma obra de maturidade, de um artista que domina as formas (breves e longas) e consegue conciliar o apuro formal e a vontade de inovação típica das vanguardas, com um enunciado pessoal. Neste enunciado pessoal está quase sempre presente a consciência da mortalidade, dele próprio e de tudo, mas sem morbidez nem auto-complacência. A enxurrada de imagens entre as quais vivemos, numa epidemia sem fim e totalmente incontrolável, as novas tecnologias que tornaram facílimo, baratíssimo e quase obrigatório produzir e reproduzir um fluxo sempre maior de imagens, resultaram num maremoto de amadorismo no domínio das artes audiovisuais. Mais do que nunca é válida a observação de Fernand Léger, segundo a qual um operário e um artesão nunca entregam uma peça antes desta estar completamente acabada, polida, ao passo que demasiados artistas contentam-se com peças não verdadeiramente acabadas. Actualmente, no domínio audiovisual, pululam as obras preguiçosas, sem estrutura, cujos realizadores, de um narcisismo primário, estão nitidamente convencidos de que não há hierarquias nem deve haver estruturas, nem ritmo, que não é preciso pensar a forma, que tudo o que é imagem em movimento basta-se a si mesmo e merece ser mostrado aos outros, em público, de preferência mediante pagamento. O trabalho de Mike Hoolboom é exactamente o contrário disso. Ele reflecte sobre aquilo que mostra: a presença das imagens nas nossas vidas. É um artesão meticuloso e amoroso das formas, que seduz o espectador, que o leva pela mão através dos meandros de uma percepção afectiva. E é um homem que pensa, que não parece admitir a banalidade naquilo que faz. O ponto de equilíbrio entre o afectivo e o intelectual, que Hoolboom atinge tantas vezes, é o que torna tão belos e tão marcantes - tão indeléveis - alguns dos seus trabalhos. Imitations of Life é um trabalho sobre a importância fundamental das imagens na formação da nossa personalidade e das nossas lembranças. Este trabalho é mais um capítulo daquela “luta que Hoolboom parece travar com a superprodução de imagens e também com o seu desaparecimento”, com bem observou Esma Moukhtar. Como tantos artistas contemporâneos, Hoolboom trabalha em Imitations of Life com imagens heteróclitas: trechos de filmes clássicos, álbuns de família, material encontrado (found footage), actualidades cinematográficas, filmes científicos, imagens dos primórdios do cinema. Estes materiais diversos são postos noutro contexto, são aproximados, quando originalmente tudo os afastava. E os que une, o que altera o seu sentido inicial, é o olhar do realizador, que antes de ser realizador foi espectador, foi nosso semelhante. No texto de apresentação da exposição acima mencionada, Hoolboom escreveu: “Não foi Andy Warhol que disse que os filmes fazem as emoções parecer verdadeiras enquanto que na vida real elas parecem distantes? Os filmes parecem-me pelo menos tão reais quanto os meus amigos e enquanto realizador estou (felizmente) condenado a vê-los constantemente”. Com humor, Hoolboom abre e fecha o seu filme com duas das mais célebres imagens de abertura e conclusão do cinema clássico americano: abre com o leão da Metro a rugir (mas com o som trabalhado de modo a fazê-lo gaguejar, para que seja menos peremptório) e termina com Porky, o porquinho gago dos desenhos animados, que diz “that’s all, folks”. Não se trata apenas de uma piscadela de olho, de uma brincadeira sobre a dimensão não hollywoodiana do seu próprio trabalho. Estas são certamente duas das imagens cinematográficas mais antigas a terem ficado na sua retina, o que as liga à seguinte observação de Freud, que ele citou a propósito de Imitations of Life: “No momento em que despertam, as memórias da infância, ao contrário do que se costuma dizer, não emergem; é nesse instante que elas se formam”. O título da obra é uma óbvia alusão a um filme clássico de Douglas Sirk, alterado pela adjunção do s final, do plural. Todas estas imagens, imitações da vida que engendram outras imitações, funcionam num jogo de espelhos: são, literalmente, o nosso reflexo, formaram a nossa visão do mundo e as nossas lembranças. Em dado momento, Hooboom menciona especificamente a noção lacaniana de estádio do espelho, o momento em que uma criança reconhece o seu reflexo, a sua presença. Mas Hoolboom, felizmente, não fez um filme analítico, exterior ao que mostra e muito menos um filme pedante, a demonstração de uma tese. No seu caso, as ideias fluem do material exposto e não o contrário. Imitations of Life, que passa constantemente da esfera da experiência pessoal para a colectiva, segue um fluxo autobiográfico, biográfico e onírico e por isso é dividido em capítulos, cada qual um todo autónomo e todos ligados entre si numa estrutura mais vasta, indivisível. Como todo grande filme, este é uma viagem, que busca encontrar o futuro no passado, encontrar aquilo que vamos ser na memória daquilo que foi. No comovente episódio intitulado Jack, o segundo mais longo do filme, em que acompanha o seu sobrinho durante os seus primeiros anos de vida, Hoolboom faz da criança, de certa forma, uma recriação dele mesmo e de nós todos. Olha para um passado imaginário para reflectir sobre o futuro, interroga-se sobre si mesmo e sobre nós todos, na busca de um olhar primordial, de “uma segunda oportunidade”, como tão bem observou Matthias Müller. Mas sabemos que quase nunca há segundas oportunidades e os segmentos finais desta obra belíssima, em surdina, quase elegíaca, adquirem o aspecto de um sonho, de um fluxo narrativo por imagens. Como num sonho, não podemos controlar estas imagens, tudo o que podemos fazer é despertar. Antonio Rodrigues

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