Under Hitchcock

Solar - Galeria de arte Cinemática

A Solar - Galeria de Arte Cinemtica, em Vila do Conde, iniciou em Maro de 2005 uma actividade permanente enquanto espao de exposies dedicado s imagens em movimento, tendo vindo a afirmar-se a nvel nacional como uma galeria nica na apresentao de criadores cujas obras reflectem um conjunto de questes atinentes ao universo do cinema e s suas repercusses na criao artstica actual. Nomes como Matthias Mller, Christoph Girardet ou Gustav Deutsch, referncias a nvel internacional na explorao e uso recorrente de found-footage, foram pela primeira vez dados a conhecer ao pas num contexto de exposio no espao da Solar. Durante o ano de 2007 iniciou-se, assim, de uma forma inovadora no plano nacional, a apresentao de um conjunto de vdeo-instalaes povoadas pela reciclagem de uma memria visual retirada do cinema annimo, cientfico ou de autor. Esta orientao predominante da programao da galeria nasceu da necessidade de aprofundar e dar continuidade a projectos nos quais se explora o relacionamento entre o cinema e as outras artes, bem como utilizao do foundfootage nos novos territrios dessas mesmas reas. Em virtude de, nos ltimos anos, termos vindo a assistir a uma proliferao de peas artsticas - sobretudo na rea do vdeo, mas tambm na fotografia ou nas Artes Plsticas (nas quais patente uma contaminao mtua e onde o imaginrio do cinema tem surgido como universo de inspirao) , a Solar surgiu para dar voz a este territrio de fronteira da criao artstica o qual, por vezes, tem dificuldade em marcar presena de forma sistemtica em galerias de arte contempornea ou at na maioria dos festivais de cinema. Por se tratarem de obras de difcil catalogao, dificilmente enquadrveis nos tradicionais espaos do cinema ou da arte contempornea de carcter mais generalista, tornou-se premente dar visibilidade ao trabalho de um conjunto de autores cuja obra se situa no cruzamento dos diferentes universos. Actualmente, a galeria Solar comea a consolidar a sua actividade e a ser reconhecida como o lugar dos outros cinemas, onde a divulgao de obras de forte carcter cinemtico encontram eco numa programao de carcter regular. A partir do incio do sculo XXI, e em parte devido revoluo operada pelo vdeo e pelo digital, o cinema deixou de ser um objecto exclusivo das respectivas salas, da televiso ou dos festivais que o promovem em todo o mundo, vindo-se a assistir a uma migrao massiva das imagens em movimento dessas mesmas salas de cinema para os espaos de exposio. As experincias cinematogrficas daquela que foi provavelmente a arte mais marcante do sculo XX influenciaram inmeros fenmenos artsticos ao longo do sculo passado, nomeadamente as artes ditas estticas, como a Fotografia, a Escultura, a Pintura, o Desenho e at mesmo a Arquitectura e o Design. Hoje em dia, o cinema condiciona de um modo ainda mais significativo todas as matrias relacionadas com as prticas artsticas, o que tem levado a uma mais profunda reflexo acerca da sua elevao enquanto forma de exposio, a um status de obra de arte de museu. A actualidade/importncia deste fenmeno foi recentemente aprofundada na exposio Le Mouvement des Images, levada a cabo no Centre Pompidou em Paris (Abril/06 a Janeiro/07). Igualmente tornou-se cada vez mais recorrente convidar cineastas contemporneos para concepo e realizao de exposies em importantes instituies do domnio das Artes Visuais, como actualmente decorre (desde Abril deste ano) na Fondation Cartier pour lart contemporain, em Paris, onde se podem visitar as obras de David Lynch (pintura, desenho, fotografia, vdeo, etc). Tambm a Solar, em 2006, convidou o cineasta experimental austraco Peter Tscherkassky, o qual, visando especificamente o espao da galeria, desenvolveu um projecto original e indito que igualmente o lanou numa rea distinta daquela a que est tradicionalmente ligado, ou seja, a do cinema. Tal projecto veio posteriormente a ser apresentado no Museu Witt de Witt, em Roterdo. A Solar apresenta-se assim como uma aposta na diversificao da tipologia dos contextos fsicos de apresentao das obras, no apenas pelo carcter permanente da sua programao (o que a destaca dos demais eventos sazonais), mas tambm por constituir um espao propcio a novas leituras e reinterpretaes do material exposto. Desde Junho de 2002, o Festival tem vindo a destacar, na seco Work in Progress,obras e autores que se revelam nas salas de cinema (nomeadamente nas seces competitivas e programas especiais, bem como nas retrospectivas) , mas que cedo demonstraram uma necessidade de ocupar outros espaos e explorar outras frmulas de apresentao dos seus trabalhos. Entre as obras que temos vindo a apresentar nesta seco do festival, destaca-se uma recorrente evocao da memria do cinema e de alguns dos seus mais importantes nomes. Entre um vasto universo de cineastas citados ou reciclados, encontra-se Alfred Hitchcock, fenmeno de popularidade em todo o mundo e um dos mais respeitados realizadores da segunda metade do sculo XX. Aquele que ficou conhecido como o mestre do suspense, hoje uma figura recorrentemente associada arte e aos museus, algo verdadeiramente impensvel nas dcadas de 50, perodo em que se popularizou no cinema e posteriormente na televiso na srie Hitchcock presents. Entre 1999 e 2000 o seu trabalho foi objecto de estudo e reflexo em duas importantes exposies a nvel internacional, Notorious- Alfred Hitchcock and contemporary Art em Oxford e Sidney, comissariada por Michael Tarantino, e Hitchcock et l`art em Paris, no Centre Georges Pompidou comissariada por Dominique Paini, Guy Cogeval e Nathalie Bondil-Poupard. A partir delas foram organizadas conferncias, editados catlogos e livros, que aprofundaram a reflexo em torno da obra do cineasta, e a forma como esta influenciou uma gerao de artistas contemporneos, tais como Pierre Huyghe (Remake) ou Douglas Gordon (24 hours Psycho). O imaginrio e esttica Hitchcockianos continuam no entanto a reflectir-se de forma marcante no nosso imaginrio, facto que se tem vindo a manifestar na obra de inmeros criadores contemporneos duma gerao posterior aos artistas apresentados na exposio Notorius (1999). Under Hitchcock surgiu como uma expresso deste fenmeno, apresentando pela primeira vez em Portugal os reflexos da obra deste cineasta na criao artstica contempornea. Este projecto pretendia dar a conhecer ao pblico portugus a possibilidade de revisitar a obra de Alfred Hitchcok, atravs do universo artstico de novos criadores, bem como perspectivar uma possvel reflexo sobre uma segunda vaga de obras e artstas marcadamente inspirados na esttica de Alfred Hitchcock. Os artistas convidados para esta exposio - Jean Breschan, Christoph Girardet, Johan Grimonprez, Laurent Fivet, Carlos Lobo, Matthias Mller, Salla Tykk, apresentam algumas obras anteriormente integradas na programao do Festival Curtas Vila do Conde (Phoenix Tapes, de Matthias Mller e Christoph Girardet, Alpsee, de Mller, e Zoo, de Salla Tykk ), a par de peas concebidas especificamente para o espao expositivo da Solar (Don't they ever stop migrating?, de Jean Breschand, Imaginary Film Set# 05, de Carlos Lobo, Portrait l'cume, Portrait l'hlice e Lovely memories, de Laurent Fivet. A exposio foi preparada ao longo dos ltimos meses, em colaborao com os artistas, numa lgica de adaptao ao espao da Solar-Galeria de Arte Cinemtica, e de articulao com a programao do 15 Curtas Vila do Conde. O programa paralelo exposio inclui um debate, com a presena de Patrick Javault (comissrio de media art no M.A.M.C.S.), de Augusto seabra, e dos artistas Jean Breschand, Laurent Fievet, Cristoph Girardet e Salla Tykk, entre outros convidados, e duas sesses de curtasmetragens que incluem alguns dos mais importantes vdeos realizados nos ltimos anos, onde o universo de Hitchcock objecto de inspirao ou reflexo. Em articulao com a exposio Under Hitchcock so apresentados no Forte de S. Joo, em Vila do Conde, dois trabalhos de Laurent Fievet, Portrait l'cume e Portrait au bouquet de Violettes. Jos Nuno Rodrigues, Director do Curtas Vila do Conde / Coordenador Artstico da Galeria Solar / Comissrio da exposio
 

Under Hitchcock
Somos todos monstros

Uma exposio de arte contempornea onde o fio condutor a obra de Alfred Hitchcock. tambm um projecto sobre a atraco das imagens. A atraco entre a arte contempornea e o cinema. Nos filmes de Alfred Hitchcoock no existe um tempo preciso mas um vrtice de pulses. So filmes de suspense, ou seja, vivem em paragem, em suspenso de tempo ; Os sonhos no tm tempo. A sua silhueta, como uma presena conhecida, passa discretamente, nas sequncias dos seus filmes. Pode olhar-nos pela cmara. Alfred real dentro dos seus sonhos. por isso que Spellbound, feito em colaborao com Salvador Dali, um dos filmes que melhor decompe esta sua viso analitica, surreal e perversa da realidade. As suas mulheres no existem : so heroinas que se vestem com uma elegncia que a depurao do sexo feminino em tweed ; os seus heris substancializam-se num chapu e nos seus filmes o sonho veste-se de uma realidade americana que nunca existiu. So filmes de suspense, quer dizer vivem em suspenso de tempo. As obras dos artistas apresentados nesta exposio criam uma materialidade fisica no interior da sua ausncia inspirando-se nos filmes, criando a partir de fotogramas, de sons e de sequncias dos mesmos. Ou criando um universo, que lhes paralelo transportando-nos sua obra sem que para tal utilizem as pelculas como matria prima. Tal como os filmes de Alfred Hitchcock vivem no interior das pulses dos seus personagens, esta exposio vive do quoficiente pulsional que os trabalhos expostos podem vir a suscitar no publico. O percurso expositivo Universos Pulsionais O vermelho e o leite que inunda todo o espao em Alpsee (1994) de Mathias Mller abre a cortina desta mostra como um leit-motiv. Simboliza a abertura ao desejo matricial das imagens presente em toda a exposio. Portrait lcume, de Laurent Fievet traz-nos a energia da espuma revisitanto o in-illo tempore do Nascimento de Vnus encarnada na figura principal de Vrtigo( 1958), que nunca veremos nesta exposio mas que se encontra presente como o fantasma de Rebecca ( 1940) na casa da Solar. Curiosamente, a primeira obra do grande iconologista das imagens, que preconiza a teoria do potencial artistico da imagem em movimento, Aby Warburg, 1 ( 1866 1929) tem por temtica a figura da deusa ou da ninfa que nasce da espuma bem como para o filsofo, Peter Sloterdijk 2, a espuma simboliza o futuro da sociedade que abandonou as esferas do pblico e privado para residir na liberdade desta arquitectura de pensamento aria, frgil e sensivel por excelncia permitindo a partir desta estrutura alvolar abrir caminho liberdade e convivncia no apenas da esfera social mas de todas as formas artisticas. A insero em Under Hitchcock, das duas sries, ja classicas, Burden of Proof e Derailed das Phoenix Tapes (1999) de Mathias Mller e Christoph Girardet, que fazem parte da primeira gerao de obras de matriz hitchcockiana, tem como raiz a leitura feita nesta exposio da obra do cineasta. Uma leitura a um segundo nivel : a do detalhe, que serve de impulso produo desta nova gerao de artistas atraidos pela herana imagtica do cineasta todas as obras presentes em Under Hitchcock so originais ou realizadas nos ultimos trs anos (excepo feita s referidas obras historicas) O percurso expositivo apresenta esta dupla entrada, que permite, por um lado, um confronto directo com a filmografia do cineasta e da sua inicitica apropriao pela arte contempornea de que so exemplo a srie das The Phoenix Tapes, por outro lado, permite a abertura ao sonho e inconsciente imagticos prefiguradas por Alpsee e Zoo. A frequncia cardaca de um filme no marcada pela msica mas pelos rudos que criam a sua densidade orgnica ; estes sons quase subliminares que se libertam independentemente das bandas sonoras de Herrmann, so capturados por Jean Breschand na instalao sonora e visual Dont they ever stop migrating e sero eles a artria sonora desta exposio. Portrait lhlice contribui para este transporte emocional com a presena dos ventiladores que movem imperceptivelmente a imagem da tempestade no rosto de Eva (Marie Saint) e a exploso da fora vital e luxuriante da selva, em Zoo de Salla Thikka, cria o suspense na sua verso do sculo XXI, a heroina desta instalao o unico corpo feminino em movimento da exposio e no fundo do tunel descobrimos Lovely Memories, obra final da trilogia de Laurent Fivet concebida site specific para a Solar . E voltando ao corredor externo da Solar, uma porta no interior da instalao Dont they ever stop migrating ? abre para um pequeno terrain vague a cu aberto onde existe a a possibilidade de criar de novo um filme, com a obra fotografica de Carlos Lobo, imaginary film set 02, after psycho, by Hitchcock. Na cave da galeria encontramos Looking for Alfred de Johan Grimonprez, instalao video onde a figura do cineasta descontruida num jogo de duplos e onde a captura do predador pela sua presa colocada em evidncia. Hitchcock over and over again Contemporneamente extractos dos seus filmes passam no hall de entrada do Solar, onde 17 ecrs difundem uma composio de stills que pertencem a 17 filmes diferentes de Hitchcock e onde o publico reencontra de novo a multiplicidade da sua suspenso de tempo. As artes visuais, o cinema e o imaginrio colectivo Alfred Hitchcock, que pertence mesma gerao de Buuel e de Koulechov, significa para o cinema o que a Pop Arte significa no dominio das artes plasticas : a democratizao do acesso obra-prima. Servindo-se das tcnicas modernas como do novo meio de comunicao, a televiso, para a qual desenvolve, nos anos 60 a srie que tem como preludio a Marcha Funebre para uma Marionete de Gounod Hitchcock presents. Os seus filmes so ainda hoje reproduzidos e vendidos nas feiras a 5 euros a cassete. Para diversas geraes, estes filmes ficaram gravados no inconsciente colectivo, sendo re-interpretados por cada artista europeu ou de outros continentes a partir da sua prpria herana cultural. Para a minha gerao e a dos artistas que fazem parte desta exposio, entre 30 e 40 anos, Hitchcock entrou no nosso universo intimo pela televiso, com a familiaridade de um tio, foi o inicio de uma cultura das imagens cinematogrficas em pequeno formato que contribuiu para o desenvolvimento da arte video. Esta exposio pretende criar um percurso em torno das diversas obras, em torno de atraces entre imagens e o seu corpo sonoro e fisico, dentro de uma casa galeria que permite estar dentro e fora de um dcor. No pretende fazer uma exegese da obra cinematografica de Alfred Hitchcock, nem das suas relaes com a arte, mas promover encontros que permitem criar uma nova fico artistica, gerada por este confronto de imaginarios, e o renovar desta descoberta com novos publicos, nomeadamente os mais jovens. Como dizia Michael Tarantino 3, nos filmes de Alfred Hitchcock vivemos um eterno dj-vu, e cada vez que os revemos, descobrimos novos elementos que ja existiam mas que nos pareciam estar escondidos no nevoeiro dos nossos sonhos, como as luvas pretas de Cary Grant em Notorious. Vivemos a experincia de um infinito remake da fico e essa re-criao que seduziu inumeros criadores desde os anos 70 : Douglas Gordon, Gus Van Sant, Mathias Mller e Christoph Girardet, Pierre Huyghe, Atom Agoyan entre outros. Na realidade surrealistica de Frenzy , de Psycho ou de North by Northwest os seus assassinos e criminosos so monstros na acepo que lhes confere Jos Gil 4 : Pecam por um excesso de realidade, eu poderia acrescentar - e estruturam a nossa realidade no mundo do desejo e dos sonhos. O meu amor pelo cinema mais forte do que qualquer moral. 5 Silvia Guerra, comissria da exposio

Notas Bibliograficas: 1 - A. Warburg, Sandro Botticcellis Geburt der Venus und Frhling . Eine Untersuchung ber die Vorstellugen von der Antike in der italienischen Frhrerenaissance, , Ed. Lopold Voss, Hamburg et Leipzig, 1893, traduzido para francs por Sybille Muller Paris, Klincksieck 1990. 2 Peter Sloterdijk, cumes Sphres III, Paris, edio Maren Sell diteurs, 2005. 3 Notorious Alfred Hitchcock and Contemporary Art,publication edited by : Kerry Brougher, Michael Tarantino and Astrid Brown, Oxford,edio Museum of Modern Art Oxford, 1999. 4 - Jos Gil, Monstros, Lisboa, re-ediao Relgio de Agua, 2006. 5 Hitchcock Truffaut, dition dfinitive, Paris, Ramsay, 1983.
 

António Rodrigues

De todos os grandes nomes do cinema clssico, Alfred Hitchcock , sem a menor dvida, aquele cujo nome e cuja obra mais transbordam as fronteiras do cinema. No tanto pela sua obra em si, que muito estritamente cinematogrfica, mas pela percepo desta obra, que interessa artistas e analistas que no so vinculados directamente ao cinema. Isto no muito surpreendente quando se pensa que Hitchcock, verdadeiro cineasta-arquitecto, no se furtou a experincias formais e narrativas: o suspense, o mcguffin; a importncia dos objectos; os filmes feitos num nico plano-sequncia ou com um flashback mentiroso ou tendo como tema central o olhar. E estas audcias nunca o fizeram perder de vista o facto de que os seus filmes deveriam ser vistos pelo maior nmero possvel de pessoas e dar lucro. Esta sesso um dos muitos exemplos do interesse dos artistas contemporneos por Hitchcock. importante ter em mente que antes de ser uma sesso de cinema, os trabalhos que vamos ver formaram uma exposio de arte contempornea sobre um confronto de imaginrios, como especificaram os seus organizadores. Foi apresentada originalmente numa galeria de arte, mais exactamente no Solar, uma galeria de arte cinemtica em Vila do Conde, durante a ltima edio do festival de curtas-metragens que se realiza naquela cidade. Isto tambm ilustra a evoluo que tm tomado alguns festivais de cinema em Portugal, que no parecem poder limitar-se ao cinema propriamente dito. Se em Vila do Conde o cinema se alarga na arte cinemtica (vdeos e instalaes), em outros festivais, aposta-se em deejays e veejays, que so as verdadeiras vedetas convidadas, partindo do princpio (da constatao?) de que noventa minutos de cinema ultrapassam as capacidades de ateno e concentrao mental da grande maioria dos portugueses de incios do sculo XXI. Ao passar do espao de uma galeria, em que o visitante pode ou no deter-se longamente diante dos monitores, para uma sala de cinema, onde a ateno do espectador no tem muitos meios de escapar, esta srie de trabalhos , de certa forma, posta debaixo de uma lupa. A estrutura e o conceito de cada um tornam-se particularmente visveis. O trabalho de abertura, Als Hitchcock in Auerstedt auf Eiermanns Else traf, destoa do conjunto, na medida em que no se trata de um trabalho de artista plstico. Tem uma estrutura absolutamente televisiva, com uma voz off falsamente sapiente e uma srie de entrevistas de poucos segundos de durao. Mas esta linguagem televisiva pardica e o filme uma singela brincadeira, sobre uma desconhecida da antiga Alemanha do Leste, que teria inspirado dois dos filmes mais clebres de Hitchcock. Ou que talvez pudesse ter inspirado, se ele a tivesse conhecido. O plano final sugere que h outra brincadeira semelhante em preparo, sobre a criana de O Tambor, de Schlndorff. Os dois trabalhos de Les Leveque (4 Vertigo e 2 Spellbound) e Nine Piece Rope, de J. Tobias Anderson, ilustram um gnero que esteve na moda h alguns anos e que consiste em condensar de modo vertiginoso longas-metragens inteiras, como se fossem vistas em acelerado em vdeo ou dvd (o que deve ser o caso para muita gente), manipulando a imagem, geralmente dividindo-a em dois, como num espelho (Anderson preferiu dividir a tela em nove partes de tamanho idntico). 4 Vertigo conclui, por sinal, com a citao escrita de uma frase da protagonista de Vertigo: Os fragmentos deste espelho ainda existem e cada um destes trabalhos exactamente isto, o fragmento de um espelho, que seria o filme. claro que estes trabalhos no se referem de modo cinfilo aos filmes que abordam, pois no tm relao com o cinema propriamente dito e sim com imagens de filmes, vistas de modo fragmentrio e desconexo: trata-se de outra maneira de ver, da nova maneira de ver. Este no o caso de Bodega Bay School, um desenho animado de factura tradicional, que se refere a um trecho especfico de Os Pssaros, uma das passagens mais clebres, magistrais e impressionantes do filme. s imagens deliberadamente banais e tradicionais se sobrepe uma banda sonora tirada do filme original e destinada a sugerir o horror da cena, com a repetio ininterrupta de uma cantilena infantil, quebrada pelo ruflar das asas e os gritos dos pssaros. Spherical Coordinates tambm se fixa numa cena e no num filme inteiro, o que permite, sem dvida, mais eficcia e preciso. Ciente diante da importncia do suspense na obra de Hitchcock, Gregg Biermann trabalha sobre a cena de Psycho em que a protagonista v um polcia pelo retrovisor do seu carro, na estrada. Igualmente sensvel elaborao visual do cinema de Hitchcock, Biermann fecha a cena numa esfera, como indica o ttulo, o que acentua a tenso narrativa e a estrutura visual, dois elementos em que Hitchcock um mestre. Como conceito, realizao e substncia, o trabalho que conclui a sesso situa-se num patamar to superior s outras obras do programa (com a excepo de Spherical Coordinates) que impossvel, e at injusto, compar-los. No so obras da mesma escala. De todas as obras apresentadas neste programa, Phoenix Tapes #1-6 tambm a nica a abordar a obra de Hitchcock no seu conjunto, sem se fixar num filme ou numa cena de um filme. Este trabalho foi uma encomenda do Museu de Arte Moderna de Oxford, para uma exposio intitulada Notorious - Alfred Hitchcock and Contemporary Art, por ocasio do centenrio de nascimento do realizador. Trata-se de um trabalho absolutamente notvel, que mostra o profundo conhecimento que os dois realizadores tm da obra de Hitchcock e a absoluta mestria que tm sobre a arte da montagem cinematogrfica. Se o ttulo da exposio fazia um trocadilho com o ttulo de um dos mais clebres filmes de Hitchcock (que em Portugal se intitulou Difamao um ttulo to ridculo que quase difama mestre Hitch), o ttulo do trabalho de Mller e Girardet alude a um dos mais clebres filmes do mestre, Psycho, cuja aco comea em Phoenix, no Arizona. Mas phoenix tambm a palavra inglesa para designar o Fnix, a ave mtica imortal que renasce das suas cinzas, assim como a obra de Hitchcock renasce eternamente, aberta a todo o tipo de abordagens e resistindo a todos. Quanto a tapes, confirma que o trabalho foi realizado a partir de cassetes comerciais ou gravadas na televiso, ou seja, no suporte no qual a maioria dos espectadores viu estes filmes antes da apario do dvd, j que a maioria nunca viu nem ver um s filme de Hitchcock numa sala de cinema. Tambm destas cinzas das suas imagens, desbotadas e sem nitidez, com gro, por vezes a preto e branco quando o original a cor, a obra de Hitchcock emerge vitoriosa. Usando trechos de quarenta filmes, devidamente identificados no genrico de fim, Mller e Girardet dividiram a sua incurso pela obra de Hitchcock em seis captulos, mostrando obsesses e recorrncias na sua obra, algumas notrias e outras que desencavaram: espaos; objectos (Peso da Prova: malas, pacotes, chaves, pistolas, listas, telefones, mos que se lavam); fobias e pesadelos (Descarrilado); a relao dos protagonistas com a me; o quarto de dormir e tudo o que nele pode ocorrer; a morte, a entrada na morte. Trechos repetidos, trechos truncados, mistura de imagens de um filme e de sons do outro (a mais marcante talvez seja a sobreposio do rosto de Anthony Perkins no desenlace de Psycho com a voz do garoto na segunda verso de O Homem Que Sabia Demais, cantando: When I was just a little boy, I asked my mother); espaos abertos e vazios; esperas, chegadas, partidas, aproximaes, afastamentos, quedas de objectos e de pessoas, cenas de amor filmadas como se fossem homicdios e homicdios filmados como cenas de amor, para citarmos uma observao de Truffaut sobre Hitchcock. Com a ausncia provavelmente deliberada das cenas mais famosas de Hitchcock (o homicdio no duche, o avio que persegue um homem num campo), estas so algumas das etapas deste catlogo, deste comentrio sobre a obra de Hitchcock, reposicionada em relao arte contempornea. Catlogo-comentrio feito com os meios da arte contempornea, da vdeo arte, por dois eminentes vdeo-artistas, que conhecem to bem o cinema clssico que s um espectador com alguma familiaridade com a obra de Alfred Hitchcock poder perceber e apreciar plenamente este trabalho. Antonio Rodrigues, Cinemateca Portuguesa

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