Celebram-se os ltimos dias do cinema em pelcula como meio ou suporte comum e o incio de uma nova era. o tempo em que a tecnologia do cinema, tal como a conhecemos e qual nos fomos habituando, poder ainda ser utilizado por alguns artistas e cineastas que continuaro a explorar as suas qualidades tcnicas e estticas do aparato cinematogrfico.

Dessas qualidade destacam-se, por um lado, as caractersticas inerentes projeo a partir de pelcula, beneficiando das propriedades fsicas do suporte que , ao mesmo tempo, o meio. Por outro, facto inultrapassvel que o cinema enquanto media beneficia de um passado cuja histria se encontra, agora, num momento de rutura. Para alm de mais de um sculo de maturao do desenvolvimento da sua relao com a fotografia - no aproveitamneto da sua prpria alquima e enquanto registo fsico da ao direta da luz num dado tempo e lugar - , o cinema em pelcula contou com a sofisticao progressiva dos aparatos mecnicos e da cincia tica que o elevaram ao seu expoente mximo: um espetculo multisensorial e intemporal que, ao mesmo tempo, se imps como uma das mais eficazes formas de expresso artstica e de comunicao.

A proposta deste programa, que engloba uma exposio e, em paralelo, sesses de cinema, uma master class e uma performance, corresponde a uma reflexo sobre o modo como o cinema tem sido afetado, nos ltimos anos, por uma grande transformao do seu processo tecnolgico: o fim da pelcula e a passagem para o digital, nos seus diferentes momentos, desde a produo exibio.

Apesar das consequncias extremas dessa transformao, numa era em que a explorao comercial do cinema feita quase exclusivamente a partir de suportes digitais, um grupo restrito de artistas e cineastas continua a exaurir as possibilidades infinitas do media, atravs da sua manipulao fsica e qumica, da desconstruo da sua linguagem apropriando-se de elementos diversos retirados de filmes clssicos ou, at, da sua metamorfose digital.

No contexto contemporneo da arte e do cinema, estes processos, para alm do seu valor artstico intrnseco, acentuam tambm a necessidade de preservar um patrimnio cinematogrfico infindvel e que tem mais de um sculo de existncia.

Entre as anteriores exposies da Solar pudemos encontrar algumas das mais interessantes abordagens utilizao desses suportes analgicos, os que perduraram desde a gnese da linguagem cinematogrfica e dos quais dependeu o seu desenvolvimento; autores que promovem, tambm, o dilogo entre duas formas de apresentao distintas - ora emgaleria, ora em sala de cinema - utilizando por vezes dispositivos alternativos baseados em projees vdeo.

A exposio Film, contar com a participao de artistas e cineastas que j passaram pela Solar ou pelo Curtas Vila do Conde e que tm como preocupao central a reflexo sobre a condio tcnica e terica do cinema, ou da sua relao com as outras artes, testemunhando que a memria das imagens sempre feita a partir do olhar singular do autor que as organiza e apresenta.

Contar tambm com a participao indita de um duo, Joo Maria Gusmo e Pedro Paiva, que pela primeira vez acederam a um convite para integrar uma exposio entre autores que so, maioritariamente, cineastas.

O percurso da exposio foi pensado de forma a oferecer ao visitante uma total liberdade de explorao dos mltiplos sentidos ou consequncias que as diversas propostas podero tomar. Desde a insero de aparatos mecnicos do cinema deslocados do seu contexto, utilizao de citaes em suportes alternativos, s transposies vdeo em canal nico ou em vrios canais, construo de caixas negras como pequenas salas de cinema e nas quais se realizam projees continuas, apresentam-se diversos tipos de objetos que consubstanciam uma ideia: Film.

A Solar apresenta, assim, um corolrio de uma srie de experincias no campo da arte cinemtica, desta vez com a incluso de um maior nmero e diversidade de mquinas do cinema, num conjunto de obras intidas de autores de referncia a nvel internacional e com a maioria dos quais tem vindo a trabalhar de forma consequente, oferecendo aos seus visitantes a oportunidade de presenciar um evento cuja principal meta a de celebrar condignamente o novo futuro de um media.

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