Depois da estética do acidente.


Este trabalho de Joo Louro explora mltiplas reverberaes da esttica do acidente, um tema e um eixo que ele foi trabalhando vrias vezes.

De facto, aqui no se trata s da utilizao de um carro acidentado para construir uma das suas instalaes acidentadas (e no acidentais). Este acidente aconteceu quando o curador se dirigia para uma reunio com um artista (Gabriel Abrantes) que participava numa exposio de que o prprio Joo Louro tambm constava (O Castelo em 3 Atos, Guimares 2012).

O grau zero da escrita deste projeto como o nome da pea nomeia curators car crashed, mas a esse grau zero associa-se uma vinculao pessoal que introduz uma narrativa autobiogrfica em todo o processo. Quando confrontado com aquilo que a sucata oferecia pelo carro o curador decidiu oferec-lo a um artista de quem amigo e que, por outro lado, participava na exposio que despoletou o despiste.

A esse grau zero do acidente que o artista j trabalhava convocando carros acidentados que encontrou em salvados mltiplos, associam-se agora mltiplos graus, que tm que ver com a circunstncia de o objecto que se transformou em obra no ser um objecto neutro, um carro sem histria, mas o carro de um curador que se despistou quando se dirigia para a produo de uma exposio em que o artista participava. O acidente deixa de ser um acontecimento que se conta a partir da circunstncia de ter ocorrido a um desconhecido, mas passa a ser um acontecimento vivido. No caso, o curador que tambm aquele que escreve estas linhas. Portanto a dimenso de mediao que habitualmente ocupa o processo da narrativa artstica, escreve-se a aqui na primeira pessoa. Duplamente. A obra que o artista apresenta a transformao de um carro deste curador que viveu o acidente no prprio corpo.

claro que a emoo que se instala dentro da obra tem aqui uma dimenso muito intensa, dentro deste carro o curador deu vrias voltas, viu, como se diz em linguagem no mdica, a morte frente. E o estado em que o carro ficou no deixa margem para dvidas quanto a essa possibilidade. Se acrescentarmos aos factos a circunstncia de o curador acidentado ser tambm mdico, portanto curador de corpos, as ressonncias de que falvamos ganham mltiplos desdobramentos. Mas isso a obra de arte. Um lugar de mltiplos desdobramentos.

E sobre aquilo que senti quando tudo isto aconteceu no me pronuncio, guardo no lugar da experincia ntima do acidente que um lugar de acesso muito difcil a quem por ele no passou.

Paulo Cunha e Silva (Curador, mdico, e acidentado no dia 23 de Dezembro de 2011 na A3, ao volante deste Mercedes SLK)
Porto, Outubro de 2013

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