instalação (dupla projeção 16mm, loop, som)
Never a Foot Too Far, Even · Canada · 2011 · 13' / 12'47”

Apropriando-se de um curto fragmento de uma cópia em 35mm de um antigo filme de Kung-Fu, “Never a Foot Too Far, Even” é um filme de ação sem ação. Apresentado numa dupla projeção com dois projetores e “loopers”, com imagens de duas bobines diferentes sobrepostas para formar uma única imagem, o filme centra-se numa figura obscura que dá por si num caminho da floresta, presa entre a movimentação perpétua e a paralisação. As imagens artísticas oscilam entre mudanças complexas de cor e textura, incluídas e excluídas através de uma estrutura polimétrica. É uma viagem perceptual sem destino na esfera móvel da constante mutação do som e da imagem, cujos início e fim se movem paralelamente em direção a um fugaz ponto de convergência. O som em “loop” das duas pistas é uma improvisação original estruturada pelo compositor/violinista Malcolm Goldstein.


Ao invés de fazer uma declaração pessoal acerca de uma obra que é bastante pessoal e, desse modo, lançar demasiada sombra de mim sobre uma imagem onde já existe suficiente sombra minha, escrevo apenas uma breve nota técnica sobre “Never a Foot Too Far, Even”: A instalação é constituída por duas bobines de filme de 16mm projetadas em “loop”, simultaneamente. Uma bobine com 13 minutos de duração e a outra 12 minutos e 47 segundos, o que equivale a dizer que é 13 segundos mais curta que a primeira. E assim continua durante 60 ciclos diferentes que permutam ao longo das 13 horas de duração. De um modo similar, o som que acompanha tem duas faixas de duração diferente a tocar simultaneamente. É uma gravação de Malcolm Goldstein a tocar a mesma peça duas vezes, de forma diferente. “Never a Foot Too Far, Even” não é para pessoas com défice de atenção – apesar de ninguém, incluindo eu, pedir para se sujeitar a passar horas a ver, aguardando o final. É, no final de contas, uma instalação – e é livre para entrar quando quiser, ficar muito ou pouco tempo e sair quando quiser. Essa é a regra do jogo. No entanto, talvez seja instrutivo para alguns mencionar que “Never a Foot Too Far, Even” emergiu do meu interesse pelas obras de Alberto Giacometti e Samuel Beckett. Por isso, deixo um excerto do texto de Beckett “Sobressaltos”, uma citação em vez de uma declaração: “Então ali, todo este tempo, onde nunca até aquele momento e até onde conseguia ver em todas as direções quando levantou a cabeça e abriu os olhos sem perigo ou esperança se fosse o caso de algum dia poder sair dali. Teria agora de decidir prosseguir ora numa direção ora noutra ou por outro lado, não mexer mais, conforme o caso ou seja como o daquela palavra perdida ou no caso de um aviso triste ou mau por exemplo então certamente que é não mexer mais. Tal e tal e tal o rebuliço na sua mente, assim chamada, até que nada resta no fundo dela, mas apenas cada vez mais fraca, ai acabar. Não importa como não importa onde. O tempo e o desgosto e o chamado eu. Ai acabar tudo.

Daïchi Saïto


Daïchi Saïto é um cineasta japonês sediado em Montreal, no Candá. Estudou literatura e filosofia nos EUA e hindi e sânscrito na Índia antes da sua carreira no cinema. O seu trabalho explora a relação entre o fenómeno corpóreo da visão e a natureza material do meio, fundindo uma investigação formal do “frame” e da justaposição com expressões poéticas e sensuais. As suas obras foram apresentadas em inúmeros locais por todo o mundo e o seu filme de 2009 intitulado “Trees of Syntax, Leaves and Axis” venceu o prémio para o melhor filme no 48º Ann Arbor Film Festival e o Grande Prémio do Júri no 16º Media City Film Festival. Os seus filmes estão incluídos na coleção permanente do Austrian Film Museum em Viena e distribuídos pela Light Cone (Paris), Arsenal (Berlim) e CFMDC (Toronto). Co-fundador do coletivo de cinema sediado em Montreal Double Negative, Saito lecionou cinema na Universidade de Concordia em Montreal, Na Universidade NSCAD em Halifax e na Escuela Internacional de Cine y TV de San Antonio de los Baños (EICTV) em Cuba. Tem também feito bastante curadoria de programação de cinema e vídeo, sendo que, recentemente, (2010-2012) foi Co-Diretor do CinemaSpace no Segal Centre for Performing Arts em Montreal.

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