12 FEV - 1 JUN


Exposição “Estação Animar”


Fuligem

David Doutel, Vasco Sá
Portugal, 2014, ANI, HD, Cor, 14'
É como fuligem que se deposita nas paredes da nossa cabeça. Não a vemos. Já faz parte.

A exposição

A ANIMAR, ao longo de uma década de exposições, tem-nos mostrado de que é que são feitos e como são feitos os filmes de animação em exposição, explorando e desvelando tudo o que esteve na base da sua conceção e produção. Com o “Fuligem” de David Doutel e Vasco Sá, subvertemos aquela lógica de percurso e, partindo das ilustrações, desenhos e todo o material digital criado para o filme imaginado, fazemos o percurso inverso de recriar, tornar real, o ambiente dos personagens do filme, proporcionando ao visitante/espetador uma viagem e uma experiência imersiva no filme.

“Partimos para o desafio de montar uma exposição em torno do universo da curta-metragem de animação “Fuligem”, tentando preservar aquela que foi a ideia central de todo o processo de construção do filme: a ilusão.
Propomos a ilusão de habitar um espaço que foi imaginado no papel, que ganhou uma vida própria através da ilusão do movimento que a animação permite. A par do filme e da vontade dos personagens, propomos uma carruagem que modifica o que vemos, de dentro para fora, fazendo um comboio cruzar a galeria. Num outro espaço, de fora para dentro agora, procurámos o lugar escuro e redundante de onde o filme não sai. O lugar sem a ilusão de que a memória se pode habitar.
A ilusão acompanha-nos nos percursos que fazemos, escolhemos e sonhamos. Mas algumas das decisões externas que nos transformam socialmente estão mais perto da destruição do que da imaginação. Quando nos questionamos sobre a ilusão, questionamo-nos sobre o próprio futuro.
Estaremos sempre a viver o futuro de quando éramos mais novos. Mas e esse futuro que imaginámos chegou ou chegará a existir?”
David Doutel e Vasco Sá

O filme

“As linhas de comboio, mais do que simples ligações entre lugares, são plenas de vida, de movimento e de histórias. São, mais do que um trilho para a locomotiva, ligações entre pedaços da vida de pessoas, são pontes para recordações e memórias que apesar de afastadas estão à distância de um bilhete. É nesta forma de ver o comboio que surge “Fuligem”. Partindo da própria palavra que dá título ao filme encetámos uma exploração da memória/recordação associada ao registo mais visual de uma viagem, onde a paisagem nos escapa por entre os olhos e desaparece nas nossas recordações. Por outro lado, implica a ideia de um percurso de vida, que é também em si uma viagem, nem sempre com um rumo certo como o comboio, mas cheia de histórias que ficam para trás como a paisagem, mas persistem no caminho. A fuligem surge como a marca que fica de tudo o que passou: no ar, nos materiais, nas mãos, nas brincadeiras e no trabalho, a fuligem mostra-nos a vida que outrora existiu.
Tendo como base um problema que afecta uma enorme quantidade de pessoas, o filme “Fuligem” pretende chegar a uma estória simples, de um homem só, que se vê obrigado a encerrar o seu passado, ironicamente pelo encerramento de uma linha de comboio, a sua. Lidar com a perda de um irmão é algo que deixa marcas para toda a vida em qualquer um, revisitar esse passado é um processo difícil e por vezes penoso. As memórias de infância são confusas, distorcidas e intermitentes, chegam-nos fragmentadas, como se a determinada altura na nossa vida tivéssemos fechado os olhos e deixado de reparar no que passava na janela da nossa carruagem.
O filme “Fuligem” assenta numa forte vontade de explorar o tema actual do encerramento de linhas e estações de comboios, carregado de implicações negativas na nossa identidade cultural enquanto colectivo, mas também nas pequenas grande histórias de cada um de nós.”


O comboio nos primórdios do cinema

Os irmãos Lumière imortalizaram o comboio nas primeiras memórias do cinema com o seu cinematógrafo (La Ciotat, França, 1895) explorando a surpresa e a emoção que o impacto das imagens de um comboio em movimento teria sobre os espetadores e dessa forma inspiraram outros, seus contemporâneos, na busca do espetáculo das imagens em movimento. Henry William (“Harry”) Short, operador de câmera, mecânico e inventor inglês, em 1896, num périplo pela Península Ibérica, procurou motivos e temáticas que enriquecessem essas primeiras incursões do cinema mais factual do que documental de então. É nesse contexto que surge não só um dos filmes mais apreciados e exibidos até ao início do século XX em Inglaterra A Sea Cave near Lisbon (incluído no catálogo de Robert Paul, pioneiro do cinema, até 1903), mas também este Portuguese Railway Train, filmado em Portugal em 1896, que a ANIMAR 10 nos apresenta em parceria com a Cinemateca Portuguesa.

L'arrivée d'un train en gare de La Ciotat, Auguste e Louis Lumière, França, 1895, 1’
Portuguese Railway Train, Henry Short, 1896, (2x) 1' (Cinemateca Portuguesa)


O comboio no cinema documental do início do século XX

Arquivo da Cinemateca Portuguesa

A importância do comboio no contexto sócio-económico e cultural português da primeira metade do século XX está patente neste conjunto de obras de cinema documental, enaltecendo o contributo deste meio de transporte nascido no seio da Revolução Industrial Inglesa em 1825 e introduzido em Portugal cerca de 25 anos depois com o primeiro troço ferroviário entre o Carregado e Lisboa, para o desenvolvimento da indústria em Portugal, particularmente das actividades económicas ligadas à extração do carvão e ao turismo, como também para a mobilidade e lazer dos portugueses.

As Minas de S. Pedro da Cova, 1917, 42'
A Companhia dos Caminhos de Ferro do Norte de Portugal, André Pereira de Moura, 1930, 18'
Excursão dos Empregados Superiores do "Diário de Notícias" a Viseu e Aveiro, 1930, 28'
Estoril Zona de Turismo, Adolfo Quaresma, 1933, 9'
Entroncamento, 1946 (?)


A presença do comboio em Vila do Conde

Fotografias do Arquivo Municipal de Vila do Conde
A casa de fotografia “Foto Adriano” teve um contributo imprescindível para a construção da memória de Vila do Conde e, neste particular, para o registo da passagem do comboio na cidade através da antiga estação de caminhos de ferro de Vila do Conde, entretanto desaparecida e substituída pela Estação de Metro de Santa Clara da Metro do Porto.

Bairro Delfim Ferreira
Estação de Caminhos de Ferro
Ponte Ferroviária


Objetos do Museu Nacional Ferroviário

Carro bagageiro
Século XIX/ XX
Equipamento acessório das estações, utilizado para carregar e movimentar cargas, encomenda ou maletas do correio e bagagens de pequena dimensão.

Porta-horários
Século XIX/XX
Estrutura com a função informativa. Nas estações suporta um conjunto de horários de circulação de comboios para consulta pelos passageiros.

Conjunto de bandeiras
Século XIX/XX
Conjunto de bandeiras de sinalização da via.

Alicate de revisor
Século XIX/XX Utilizado pelo revisor para perfurar/inutilizar/validar bilhetes de cartão tipo Edmonson ou outros de cartolina, na validação de títulos de transporte ferroviário. Também conhecido por tenaz do revisor.

Obliteradora
Século XIX/ XX
Marcador de bilhetes de cartão, para marcar a data, dado que o bilhete já tem as restantes indicações impressas. Vulgarmente conhecido por marcadeira. Telefone de mesa
Século XX
Telefone de mesa manual, de funcionamento a magneto, composto por auscultador, pega isoladora e microfone. Utilizado para comunicações de serviço entre estações e outros pontos da via (por exemplo, passagens de nível, postos de sinalização).

Boné
Século XX
Utensílio do fardamento do bagageiro de serviço.

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