Película: Inventada no final do século XIX, é composta por uma série consecutiva de imagens fotográficas assentes numa tira de celulóide que é posta em movimento por um projector. Com a invenção da televisão, as primeiras imagens geradas electronicamente juntaram-se ao mundo ilusório do cinema analógico. Há já algum tempo que temos vindo a assistir a um processo inexorável pelo qual as imagens geradas electronicamente irão acabar por substituir a película analógica. Daqui a alguns anos – no máximo, no prazo de duas décadas – a película analógica terá desaparecido. Na maior parte dos géneros do cinema, esta mudança terá pouco impacto para os cineastas. Para aqueles que no entanto, consideram que o cinema é uma arte, esta substituição é nada menos que dramática. Porquê? O nascimento do que hoje em dia chamamos “arte moderna” aconteceu numa fase durante a qual os criadores artísticos começaram a reflectir a estrutura interna da própria arte, o seu potencial criativo enquanto meio, tendo-se tornado também profundamente ligados ao seu próprio material. Este ponto de partida reflectivo permitiu uma explosão de expressões criativas que nós, em retrospectiva, denominámos de “modernista”. Dos diferentes géneros do cinema, são acima de tudo os filmes clássicos e de vanguarda que exploram e utilizam os aspectos específicos deste meio bem como o seu potencial criativo único. Nesta perspectiva, é difícil não reparar no seguinte facto: para articular uma linguagem artística avançada usando imagens projectadas, é impossível substituir a película analógica pela manipulação digital, pois estes media são completamente diferentes. Apenas o efeito final é o mesmo, nomeadamente a reprodução ilusória do movimento. Generalizando de forma grosseira: os dois meios não têm nada a ver um com o outro, a não ser o veicular de imagens em movimento. É óbvio que este diagnóstico não deverá ser interpretado como uma crítica da manipulação digital e do seu potencial enquanto meio artístico e reflectivo. Estou apenas a frisar o potencial radicalmente diferente dos dois media no que toca à sua utilização artística e auto-reflectiva: de um lado, dados codificados em código binário guardados num qualquer suporte de memória que não permite o contacto físico directo mas que parece oferecer um sofisticado grau de manipulação; e do outro um material de base fisicamente palpável com uma complexa estrutura de camadas, que permite uma interacção química e de luz que gera uma reprodução analógica. O meu trabalho artístico dedica-se a esta diferença entre os mundos da imagem analógica e da imagem digital. Na minha câmara escura, a “Manufractura”, crio filmes através do uso de um processo arcaico de sensibilização por contacto que realça as qualidades plásticas específicas da película. Na prática, eu crio sem câmara, trabalhando directamente na película, através da utilização de várias manipulações físicas. Uso principalmente material “encontrado” (found footage) como ponto de partida: filmes de Hollywood, filmes amadores, diversas pontas de bobinas, etc.. Essencialmente, faço a sensibilização da película frame a frame usando as fontes de luz mais variadas: usei o cone de luz emitido a partir de um ampliador, (L’Arrivée), o raio vermelho de um ponteiro laser (Outer Space, Dream Work), e diversas miniaturas de lanternas (Instructions for a Light and Sound Machine). As limitações técnicas inerentes aos fotogramas individuais são muitas vezes ultrapassadas durante este processo de sensibilização. É nestes momentos que nasce algo a que chamo “cinema invisível”: aparecem elementos artísticos do filme que não podem ser vistos no cinema. Por um lado, as imagens voam à razão de 24 imagens por segundo, graças ao projector. Depois existe o enquadramento fixo da imagem, tal como é imposto, mais uma vez, pelo projector, que apenas revela uma certa parte da película. Ao examinar pedaços de celulóide no seu estado estático, revelam-se estruturas ocultas na câmara escura, tornando palpáveis as qualidades físicas únicas da película física enquanto meio específico e insubstituível. A exposição Frame by Frame pretendeu revelar estes mundos invisíveis e torná-los acessíveis aos nossos olhos. Peter Tscherkassky, 2006.

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