13 de Outubro, 2005. O helicóptero Bell 206, que seguia de Phitsanulok em direcção a Chiang Mai, despenhou-se numa catarata devido à pouca visibilidade causada pelo mau tempo. Morreram o Major-General Phairat Thongjattu, o seu assistente Major Wisit Worrawitwatthana, e os pilotos Capitão Thonglor Narkphoo e Capitão Phoomin Sha-uthai. Os destroços foram encontrados na base da catarata Mae Kerng, a dois quilómetros do parque Nacional Wiang Kosai. Uma força especial de 400 polícias e militares deram início a uma operação de busca dos destroços. “Até ver o corpo, continuo a acreditar que ele está vivo,” disse Suphattra, a viúva de Phairat. Avançávamos para leste, porque gostávamos da sensação de estar sozinhos junto à costa marítima. Durante a tarde, passámos em Chonburi em direcção a Chantaburi. As lojas de rua pareciam exactamente as mesmas de outras ruas tailandesas. Mas no leste, o céu está sempre cinzento e cheira a terra e a água salgada. Depois, comecei a pensar no último filme que tinha acabado de terminar. Parte dele era sobre o sol e a sua energia curativa. Agora que a rodagem tinha terminado e a estação das chuvas se aproximava, o sol tinha desaparecido. Tong, que estava sentado no banco da frente, punha sempre música disco. Um mês antes, fomos acampar para um parque nacional a oeste. Perto da meia-noite, Tong sentou-se na relva e observou as estrelas. Contou-me que estava apaixonado por um tipo francês que vivia em Hong Kong. Levámos duas horas a chegar ao nível superior da catarata Kao Chamao. Éramos sete. A partir do nível não havia mais pessoas porque o terreno era junto a um precipício. Quando alcançámos o topo, não conseguíamos dar nem mais um passo. Ake e os seus amigos estavam deitados nas rochas junto à àgua, a fitar as nuvens. Eu tirava fotografias. Lá em baixo, havia um cardume de peixes. Veio-me à cabeça uma imagem do filme – uma senhora idosa que toca na cabeça de um adolescente. Ela estava a curá-lo com o poder do sol. À noite, encontrámos um hotel numa pequena cidade. Era um edifício de betão utilizado frequentemente pelos caixeiros-viajantes. Ficámos com um quarto no terceiro andar. No corredor, liguei ao meu amigo Wut que trabalha numa fábrica da Honda em Chonburi. Conheci-o no ano passado e viajámos juntos para alguns lugares. Certa vez, fomos a um templo num monte. A noite já ia longa e conseguíamos avistar lá em baixo as jangadas ao longo do rio. As pessoas nas jangadas ouviam música disco. Wut ouvia a minha história ao telefone enquanto guiava em direcção a casa, e a angústia que tinha acumulado nos últimos dois meses. E contei-lhe a razão da minha visita à catarata. No corredor, Wut disse-me para apagar as memórias porque eram inúteis. As pessoas movem-se em diferentes realidades. Essa não é a tua realidade, disse-me ele. Pensei numa mulher que acreditava que o seu marido ainda estaria vivo na selva, no meio dos destroços do helicóptero. No dia seguinte, apanhámos um barco para uma ilha. Ficámos num bungalow junto à praia. Mergulhámos na água até o sol se pôr. Subi para os ombros de um amigo e dei um salto mortal para o mar. Era noite de lua cheia. Vistas do mar, as montanhas pareciam pretas.

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