Notas de Trabalho

O projecto dos retratos em movimento teve provavelmente a sua origem em tempos, durante a realizao de A Audincia, documentrio sobre a nova vida religiosa da comunidade cigana. Filmei com algumas famlias de Castelo Branco, e com o Ti Joo, o patriarca, um homem velho de grandes barbas brancas, figura de referncia na comunidade, outrora guarda costas do presidente Ramalho Eanes. Sempre que lhe dirigia o olhar atravs da cmara, Ti Joo tentava ficar o mais esttico possvel, parava e concentrava-se numa pose. Explicava neta que eu estava a tirar-lhe o retrato. Embora soubesse que se tratava de um filme documentrio, preponderava nele a referncia da fotografia e de todos os retratos de famlia que organizara em bela composio na parede do quarto. Impunha-se uma nova relao em torno do olhar. As questes de fundo que se colocavam constantemente no acto de filmar e que determinavam a postura do meu olhar os longos tempos atrs da cmara, o assumir ou no a presena desse olhar enquanto interveno na realidade, o tempo que escoa na percepo do mundo e dos pequenos gestos surprendiam-me naquela ocasio em novos termos. O que acontecia naquele tempo, pela forma de se dispor imagem do TiJoo? Um retrato, um campo de foras fechado, tal como o define Roland Barthes no seu ensaio sobre a fotografia. Senti a exigncia de concentrar o meu trabalho em torno disso: entrar nesse campo de foras e faz-lo utilizando a imagem flmica. Pondo em oposio o isto foi da fotografia com o isto est a acontecer da imagem flmica, recolocar questes em torno do retrato. Os longos tempos de exposio remetem para os exrdios da tcnica fotogrfica, os retratos de Nadar, quando se era obrigados a longos tempos de imobilidade, ou o ritual das longas e generosas poses no atelier do pintor. Estou interessada no retrato como prtica perceptiva, como trabalho sobre o olhar e o tempo. A experincia do sujeito olhado e a do sujeito que olha aglutinam-se na constituio da imagem flmica, que se encarrega de as captar no fluir do tempo. No processo e na opo do medium flmico a suspenso do tempo caracterstica do retrato tradicional destituida dando vida a um trabalho sobre a prpria matria do tempo. Quanto cara, interessa-me nos termos teorizados por Emmanuel Lvinas. O rosto linguagem mesmo antes de se fixar em representao, apelo devoo que devo aos outros. No concretar-se do encontro com o rosto alheio o eu suspende a sua persistncia-em-ser, o seu conatus essendi.... Obrigao responsabilidade em termos levinasianos, impossibilidade de subtrair-se que no servido mas eleio. No incio apenas frontalidade, nada mais.

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