ANTOLOGIA DO BOM COMPORTAMENTO

(…) o mundo é tudo aquilo com que experimentamos até à fractura. Peter Sloterdijk 1
“A prática da interferência, a dinâmica da fractura e da desordem constituem na obra de Paulo Mendes uma das orientações emblemáticas. É a própria esfera do exercício da sabotagem que advém horizonte referencial do seu projecto, aquando da sua primeira mostra individual, há dez anos, na Galeria Zero. Nessa ocasião realiza The Conversation (1992), peça que adquire um valor simbólico por nela se evidenciarem as características e qualidades transgressivas que norteiam os princípios do seu método de trabalho. A peça, através do conjunto formado por uma mesa e pela relação incoincidente de duas cadeiras, desafia a possível sensação de harmonia reinante, colocando em destaque a ideia de antagonismo e de impossibilidade dialógica. Para a caracterização deste ambiente conflituoso e para desestabilizar ainda mais a imagem de uma possível convivência pacífica entre os dois interlocutores, concorria ainda a natureza do registo sonoro que ecoava por todo o espaço da instalação. Tratava-se de uma composição de Stockhausen produzida por receptores de onda curta, cuja estrutura conceptual baseada nos valores da aleatoriedade e dissonância vinha reforçar o sentido de disrupção comunicativa. (…) Um evidente desejo de mobilizar o debate e estabelecer um relacionamento empenhado entre a actividade artística e a sociedade civil é patente também nas obras que analisam as repercussões decorrentes de certos acontecimentos da actualidade portuguesa e mundial. Refira-se neste sentido o tratamento conferido à problematização das relações de força e aos conflitos bélicos mundiais (American Way of Death, 1995 e Ultimate Warrior – Iraque, 1995), à evocação da territorialização, do fenómeno da emigração e à precária existência dos trabalhadores imigrantes (Index 3, projecto conjunto com Miguel Leal e Fernando José Pereira, 1998) e Morphing Mosh (Transglobalimmigration)/House #1/T3 Emigrante, 2001), e ainda à tematização dos atentados do 11 de Setembro (The Sky is Still Blue/The Creator Says Infinite Justice, 2001 e The Sky is Still Blue/Part 2/Sleeping Beauty (Bacillus Anthracis), 2001). É representativa dessa procura de estabelecer nos projectos um envolvimento consistente com o real a forma como Paulo Mendes integra nestes trabalhos o valor concreto e documental de vídeos e registos fílmicos e televisivos, de jornais e revistas de grande circulação, bem como a relevância cultural e popular de objectos triviais ou lúdicos.2 Esse procedimento transmite um efeito procurado de relativa impessoalidade em detrimento das características mais expressivas do fazer artístico, e parece radicar-se na intenção de consubstanciar a preponderância contextual de toda a iniciativa artística. Refira-se a esse título Timôr Loro Sa’e – Enterrados Vivos – Trabalho em Progresso (1996), onde através de um levantamento documental exaustivo sobre a Resistência Timorense e sobre diversas realidades do panorama político do território, o autor retratava a situação problemática que se vivia no presente (…). Sendo embora possível detectar em toda a obra de Paulo Mendes um apelo de cariz utópico, centrado na postura crítica e autocrítica que tende a consagrar a autenticidade e o empenho mobilizador do artista no seio da sociedade,3 de igual modo importa referir os pressupostos pragmáticos em que assentou desde cedo a sua prática artística. Assim, ele revelou uma permanente preocupação teórica ao nível do entendimento das múltiplas possibilidades de actuação interventiva e não descurou o estabelecimento de uma convergência com respeito à apropriação das estratégias mediáticas da sociedade de consumo.4 Isso é visível, designadamente nos trabalhos5 em que Paulo Mendes se socorre das imagens da publicidade e da aplicação da noção de arte como mercadoria, por forma a reverter a seu favor a eficácia comunicacional e persuasiva que as caracteriza. O que nunca é apenas um investimento no papel e na carga promocional que lhe são reconhecidas, mas uma deslocação intencional do seu sentido e lugar. Ou seja, trata-se, no envolvimento peculiar e sempre imprevisto que marca a sua arte, de as enredar num criticismo que atinge e desestabiliza a sua própria filosofia.” Sandra Vieira Excertos do texto “Antologia do bom comportamento” publicado na monografia Paulo Mendes / the best of...Vogue, edição Mimesis, Porto, 2002 1 Peter Sloterdijk, Ensaio sobre a intoxicação voluntária. Um diálogo com Carlos Oliveira, Lisboa, Fenda, 1999, p. 11. 2 De acordo com estas referências, cabe mencionar a particular atenção que dedicou ao trabalho de Jason Rhoades, John Miller, Mike Kelley, Sigmar Polke, Paul McCarthy, Richard Prince e do Group Material. 3 Exemplos paradigmáticos de uma exigência baseada na responsabilidade ética do artista são O Artista está a morrer (1995) e Vanitas - Retrato da Minha Geração (1990/1999-2000), onde através de um pódio construído por paletes de uso industrial faz menção a uma convivência entre os pares baseada em valores de individualismo e de competitividade instituídos. 4 Refira-se a este propósito “Anotações sobre como se deve jogar xadrez”, um texto do artista publicado na revista “Confidências para o exílio” (nº 1, Março 1994, pp. 7-19), em que surgem abordadas estas questões. 5 É o caso dos projectos Do it Yourself – Faça Você Mesmo (1993), O Processo (1994), Heaven Inc. (1995), Paisagem Económica Urbana (1997), Morphing Mosh (Transglobalimmigration)/House # 1/T3 Emigrante (2001), e das obras Made In Portugal – Visite o Ambiente Modelo (Laboratório de Biologia Molecular com livro de Guy Debord “A Sociedade do Espectáculo” e tela quadrada de cor laranja) (1993) e L’Art Passe Par Tout (Wallpaper) (1998).

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